sexta-feira, 17 de maio de 2013

Descubra a verdade por trás das marcas!!!!


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Para Dona Cissi e as produtoras de cacau, o chocolate acaba de ficar mais doce e com sabor de vitória.

E tudo graças a VOCÊ!

As três grandes do chocolate, NestléMars, IncorporatedMondelēz International assumiram o compromisso de respeitar as mulheres que produzem seu cacau!

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AGROECOLOGIA EM RONDÔNIA!!!!!



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Castanhais podem ser resultado da ação de populações indígenas antes da colonização europeia


O fator humano

SALVADOR NOGUEIRA | Edição 198 - Agosto de 2012
© FABIO COLOMBINI
Castanheira na floresta amazônica: influência humana pode explicar disseminação
A distribuição das castanheiras na região amazônica é motivo de controvérsia há várias décadas. Como o fruto que contém a semente é duro e de difícil dispersão, os especialistas não entendiam exatamente como existem castanhais – áreas densamente ocupadas por árvores da espécie Bertholletia excelsa – em toda a Amazônia. Uma das explicações mais antigas dizia que roedores como a cutia e aves como a arara eram responsáveis pela disseminação da semente. Agora dois trabalhos recentes vêm reforçar outra tese: grande parte das árvores da castanha-do-pará teria sido cultivada e mantida por indígenas antes da ocupação europeia no continente. O primeiro estudo baseou-se nas atividades humanas na floresta; o segundo em análises genéticas e até linguísticas sobre os idiomas indígenas.
Ricardo Scoles, da Universidade Federal do Oeste do Pará, e Rogério Gribel, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), fizeram um dos trabalhos. Eles partiram do pressuposto de que a intensidade das ações dos antigos habitantes da região nos castanhais deixou uma “assinatura” na população de árvores que pode ser identificada. E compararam castanhais da região do rio Trombetas com os das vizinhanças do rio Madeira. A primeira área era bastante ocupada por indígenas antes do descobrimento do país, mas depois sua população caiu drasticamente no século XVI. Já a segunda região teve a ocupação humana preservada mesmo após a colonização portuguesa.
As diferenças encontradas foram marcantes. Enquanto os velhos castanhais tinham mais árvores antigas e menos sementes disponíveis para novas germinações, os que tiveram a presença constante de seres humanos eram, em geral, mais jovens e produtivos.
“Os dados apoiam a ideia de que os castanhais, mesmo os que são considerados floresta prístina [primária] e ‘nativa’, resultam de influências antropogênicas”, escreveram os pesquisadores em artigo publicado na revista Human Ecology. “Para nós, a concentração de castanhais na Amazônia é explicada pelo manejo tradicional da paisagem amazônica, especialmente no período pré-colonial”, afirma Scoles. “A modo de exemplo, as estimativas de idade média das árvores de castanheira a partir dos anéis de crescimento em muitos castanhais da região do rio Trombetas coincidem com a época de diminuição das populações humanas nativas da Amazônia.”
As árvores que dão origem à castanha-do-pará não raro têm 400 anos e há relatos de exemplares com mais de um milênio de vida. A primeira sugestão de que os castanhais tenham sido criados e mantidos por antigos povos amazônicos veio do botânico e etnólogo ítalo-brasileiro Adolpho Ducke (1876-1959), em 1946. Outros voltaram a defender ou a atacar essa tese nas últimas décadas.
Os frutos da castanheira, que contêm as cobiçadas sementes, por serem difíceis de abrir não parecem ter um mecanismo simples de dispersão. Deixados aos seus próprios meios, os frutos teriam dificuldade até mesmo para se espalhar por uma área pequena, que dirá por toda a floresta. O primeiro a descrever o fenômeno foi o suíço Jacques Huber, em 1910. Outro estudioso desse tema é o paraense Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. Biólogo ambiental renomado, em 1997 ele reforçou essa ideia indicando que a cutia, roedor comum na floresta amazônica, com seus dentes afiados, poderia dar o empurrão que a castanheira precisa para se multiplicar.
Peres observou o comportamento desses animais e viu que eles conseguiam abrir o fruto e colher as sementes. Uma em cada quatro delas era consumida no próprio local, mas a maior parte das restantes as cutias enterravam para comer mais tarde. Há de se presumir que nem todas as sementes enterradas seriam recolhidas depois, ganhando a possibilidade de germinar e dar origem a uma nova castanheira. Para Peres, essa demonstração era suficiente para explicar a origem dos castanhais.
Contudo, um enigma ainda permanecia: como a árvore conseguiu se espalhar por tantas regiões da floresta de forma tão marcante? Para alguns pesquisadores, mecanismos naturais não são suficientes, e só mesmo a ação de populações humanas daria conta do fenômeno. Para dar ainda mais suporte a essa hipótese, Glenn Shepard Jr., do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), e Henri Ramirez, da Universidade Federal de Rondônia (Ufro), fizeram um levantamento multidisciplinar que deixa poucas dúvidas e no qual tiveram a colaboração de Rogério Gribel, do Inpa. Eles colheram evidências que vão desde a biologia, com análises genéticas das populações de castanheiras, até a linguística, correlacionando diversos idiomas indígenas para decifrar a importância histórica da castanha para as populações da região.
Uma das revelações mais importantes vem da análise do DNA, feita por Rogério Gribel e Maristerra Lemes, do Inpa, e colaboradores. Ao comparar as populações de árvores em todas as partes da Amazônia, notou-se que há grande homogeneidade, ou seja, poucas diferenças genéticas de local para local. Isso indica que o espalhamento geográfico da castanha-do-pará se deu rapidamente e em uma época relativamente recente, o que torna mais complicado imaginar um mecanismo natural para sua dispersão.
“As cutias podem explicar a distribuição espacial concentrada dos indivíduos de castanheira dentro dos castanhais”, diz Scoles. “O que é impossível de entender é como esses roedores, sem ajuda humana, podem explicar a distribuição pan-amazônica de Bertholletia excelsa. A dispersão da cutia é altamente ineficiente e de curta distância. Além disso, como esses roedores poderiam atravessar os grandes rios com sementes na boca?”

Outros animais que também comem castanhas, como as araras, poderiam ajudar nessa dispersão de meia distância, algo em que Scoles não acredita. “Geralmente as araras estragam a produção de frutos porque os comem antes de estarem maduros”, diz. Ainda assim, além de o fenômeno não ter sido suficientemente documentado, ele parece mais complicado do que imaginar que para os indígenas do passado pode ter sido interessante consumir e plantar castanhas-do-pará. “Para nós, é mais fácil explicar a distribuição em grande escala pela dispersão humana voluntária e/ou involuntária em tempos pretéritos”, conclui Scoles.
Uma comparação feita por Shepard e Ramirez entre a distribuição geográfica das castanheiras e a das sapucaias mostrou que a área de distribuição da sapucaia contém várias espécies geograficamente distintas, indicando uma história evolutiva mais profunda e processo de dispersão mais longo. “Já a castanha apresenta uma única espécie na Amazônia inteira, indicando uma história mais recente”, diz Shepard. A sapucaia é parecida com a castanheira, mas tem frutos que facilitam a dispersão das sementes.
Além disso, enquanto populações de sapucaias mostram pequenas variações genéticas em dezenas de quilômetros, as castanheiras não apresentam nenhuma variação em milhares de quilômetros por toda a Amazônia. O que levou os pesquisadores a pensar que há vários mecanismos diferentes agindo para formar as duas populações de árvores.
Linguística
Um dos aspectos mais interessantes do estudo de Shepard e Ramirez é o uso de comparações linguísticas para tentar identificar a importância de certos elementos na cultura dos povos do passado. Os próprios autores são cautelosos na análise dessas informações, mas ainda assim apresentam dados interessantes. Comparando os termos usados pelas três maiores famílias de idiomas amazônicos nos locais em que há castanhais, denominadas Arawak, Carib e Tupi, os pesquisadores puderam notar que, de forma geral, é possível identificar uma origem comum para uma palavra que designe a castanha nas duas primeiras, mas não na terceira. Para os falantes de idiomas da família Tupi, o mais comum é vê-los se referindo à semente por meio de uma palavra “emprestada” de outra língua.

Correlacionando esses dados linguísticos, Shepard e Ramirez acreditam que a castanha-do-pará se tornou um elemento importante da cultura indígena principalmente durante o primeiro milênio d.C., coincidindo com a adoção de agricultura mais intensa e um estilo de vida mais sedentário por parte das populações nativas.
Sobre a origem da Bertholletia, a análise linguística parece corroborar estudos genéticos que sugerem que a árvore surgiu na região norte ou central da Amazônia, para depois se espalhar (ou ser cultivada) a oeste e ao sul. Isso ajudaria a explicar por que não há uma palavra específica nas raízes do Tupi para ela, uma vez que esse tronco linguístico parece ter surgido no sul da floresta, onde hoje fica o estado de Rondônia. Isso também pode dar alguma explicação para o fato de que sítios arqueológicos rondonienses de 4 mil anos de idade, embora estejam em locais onde hoje há importantes castanhais, não têm nenhum sinal de consumo antigo de castanhas.
Apesar das evidências, nenhum dos defensores da hipótese antropogênica dos castanhais afirma que o debate está superado. “A confirmação definitiva seriam evidências arqueológicas e arqueo-botânicas mostrando, por exemplo, a aparição de restos de castanha em sítios arqueológicos a partir de uma determinada data”, ressalva Shepard.
“O arqueólogo rondoniense Eurico Miller me disse que achava estranho não encontrar restos de castanha em sítios arqueológicos antigos em Rondônia, onde hoje tem bastante castanha na superfície”, conta Shepard. “Teria de se confirmar essa observação pessoal do Miller com evidências mais concretas e tentar determinar a data em que a castanha ‘entra’ nos restos arqueobotânicos para Rondônia e outras regiões.”
De acordo com Ricardo Scoles, duas linhas de pesquisa podem também dar fim ao grande enigma. A primeira seria um esforço de correlacionar dados de distribuição geográfica da castanheira com a presença de sítios arqueológicos e a chamada “terra preta de índio” – indício de agricultura por esses povos nativos em tempos passados. A ideia é demonstrar que onde havia ocupação antiga também havia a formação de castanhais.
Outra confirmação pode vir de estudos genéticos das variedades da espécie, que permitam determinar de forma mais precisa como e quando se deu o espalhamento daBertholletia pelo território amazônico. Segundo Scoles, ambas as linhas de pesquisa já estão sendo perseguidas por pesquisadores do Inpa.  “Creio que elas darão resultados conclusivos em relação ao caráter antropogênico dos castanhais.” Mas, por enquanto, a questão continua aberta.
Artigos científicos
SCOLES, R. e GRIBEL, R. Population structure of Brazil Nut (Bertholletia excels, Lecythidaceae) stands in two areas with different occupation histories in the Brazilian AmazonHuman Ecology. v. 39, p. 455-64. 2011.
SHEPARD JR., G.H. e RAMIREZ, H. “Made in Brazil”: human dispersal of the Brazil Nut (Bertholletia excels, Lecythidaceae) in Ancient AmazoniaEconomic Botany. v. 65 (1), p. 44-65. 2011.

O lixo e a utopia


Pesquisadores identificam e analisam como acontece o fenômeno da inserção produtiva em tempos de crise

Edição 206 - Abril de 2013


© EPITÁCIO PESSOA /AGÊNCIA ESTADO /AE
Catador de papelão nas ruas de Belo Horizonte
Catador de papelão nas ruas de Belo Horizonte
Em janeiro de 2008, o Brasil registrou uma taxa de desocupação de 8%. O quadro não era tão dramático quanto o de janeiro de 2003, quando o desemprego ultrapassara os 11%, mas um imenso contingente de trabalhadores ainda buscava alternativas de renda no mercado informal de trabalho. Foi exatamente nessa época que um grupo de pesquisadores, liderados por Márcia de Paula Leite, do Programa de Pós-Graduação em Educação e em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), iniciou estudo com o objetivo de identificar e compreender as diferentes modalidades de inserção produtiva constituídas em tempos de crise, principalmente o cooperativismo, já estimulado, na época, por política oficial.
Ao longo dos cinco anos seguintes, o cenário mudou e o índice de desemprego descendeu para um patamar próximo dos 5%, o que possibilitou aos pesquisadores praticamente presenciar o rearranjo desse mercado. “O trabalho precário ainda existe, mas o cooperativismo e o associativismo ganharam contornos diferentes, que desafiam o ideário de algumas correntes de pensamento ligadas à economia solidária”, afirma Márcia, coordenadora do projeto temático A crise do trabalho e as experiências de geração de emprego e renda: as distintas faces do trabalho associado e a questão de gênero, com o apoio da FAPESP.
O conceito de economia solidária tem origem na crise econômica e de emprego dos anos 1960 e identifica formas de organização do trabalho distintas dos padrões do mercado, entre elas o associativismo. Ganhou status de política oficial do governo federal desde 2003 e é considerada uma iniciativa a favor da inclusão social. “Economia solidária é um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente”, explica a página do programa no site do Ministério do Trabalho e Emprego. Envolve “práticas econômicas e sociais organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário”.
A pesquisa coordenada por Márcia – e que teve Jacob Carlos Lima, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Ângela Maria Carneiro Araújo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), como pesquisadores principais – começou com um amplo levantamento, em várias fontes, dessas formas “diferentes de produzir” no estado de São Paulo, que identificou um total de 107 cooperativas: de alimentação (3), artesanato (21), costura e confecção (11), fábricas recuperadas (13) e, principalmente, de reciclagem (59). “Visitamos todas as cooperativas e associações de São Paulo, com equipe de alunos bolsistas, para aplicação de questionário”, conta Márcia.
© EPITÁCIO PESSOA /AGÊNCIA ESTADO /AE 
Tempos passados: desempregados mostram carteiras de trabalho há uma década; ao lado, camelô na capital paulistana
Tempos passados: desempregados mostram carteiras de trabalho há uma década; ao lado, camelô na capital paulistana
A análise das informações mostrou que as cooperativas de alimentação, artesanato, costura eram literalmente informais, não organizadas, e que o trabalho coletivo dizia respeito mais à comercialização do que à produção. Pouco contribuía para aumentar a renda ou a condição de vida dos associados. As fábricas recuperadas eram experimentos mais “estruturados”, com vínculos mais estreitos com o sindicato, já que agregavam trabalhadores migrados do mercado formal, sem perspectiva de retorno. As empresas autogestionadas, no entanto, revelaram-se um fenômeno cada vez mais raro numa economia em desenvolvimento, sublinha Márcia.
A experiência mais representativa – e que ganhou mais atenção dos pesquisadores – foi, e segue sendo, a das cooperativas de reciclagem, que reúnem trabalhadores urbanos “extremamente excluídos”, desempregados e inativos, ex-catadores de lixo ou empregados domésticos, analfabetos e sem condições de ingresso no mercado formal de trabalho. “Essa forma de inserção pode, efetivamente, contribuir para tirá-los da miséria social e lhes garantir cidadania.”
Essas cooperativas também se diferenciam pela organização: são ligadas ao Movimento Nacional de Catadores de Recicláveis (MNCR), que, segundo a pesquisadora, conseguiu a regulamentação da ocupação e aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em agosto de 2010. “E, diferentemente das demais, têm grande potencial de crescimento, considerando que o país possui ainda uma porcentagem significativa da população, cerca de 16,2 milhões de pessoas, com rendaper capita inferior a R$ 70”, argumenta ela, com base em dados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), coletados em junho de 2012.
A cooperativa de reciclagem, por suas características, é o tipo de empreendimento que mais se aproxima dos preceitos da economia solidária, já que apresenta um elemento de “resistência” dos trabalhadores à situação de exclusão, de desemprego e de subordinação ao trabalho assalariado. Trata-se, no entanto, de empreendimento extremamente “frágil”, nota Márcia, e há enormes dificuldades a serem superadas para alcançar condições de sustentabilidade econômica e de reprodução. A primeira delas é a distância que ainda mantém dos princípios da solidariedade e da prática da autogestão propugnados pela economia solidária e, como ela diz, “dificilmente alcançáveis nas condições políticas atuais”.
© EDUARDO CESAR
Além disso, o mercado já compreendeu que a reciclagem agrega valor ao produto, transformando lixo e sucata em matéria-prima a baixíssimo custo. “No barracão, o lixo é separado, ensacado ou empacotado e vendido por centavos de reais a intermediários que vendem para os recicladores. Poucas cooperativas têm prensas ou espaço para armazenamento”, descreve. “É preciso implementar políticas públicas que de fato permitam às cooperativas de catadores agregar valor ao seu produto.” A Lei de Resíduos Sólidos, aprovada em 2011, por exemplo, estimula as prefeituras a negociar o tratamento de resíduos sólidos com cooperativas de catadores, mas, até o momento, poucas adotaram essa política.

Márcia reconhece que o cooperativismo propicia, de alguma forma, a inclusão social e política de indivíduos que, até então, viviam em situação de absoluta miséria. Conta que, em visita a associações de reciclagem, era frequente ouvir dos cooperados declarações de que o trabalho organizado os tirara do silêncio. “Trata-se, sem nenhuma dúvida, de um processo de libertação e de empoderamento, que vai ao encontro da economia solidária”, ela sublinha.
A “inclusão” e o “empoderamento” – palavra traduzida literalmente do termoempowerment, em inglês, que significa a ação coletiva desenvolvida por indivíduos e que propicia a consciência social dos direitos sociais – parecem ser o ponto forte das iniciativas da economia solidária. Adriane Vieira Ferrarini, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unisinos, no Rio Grande do Sul, uma estudiosa do tema, pondera que, se consideradas apenas da perspectiva da renda, essas iniciativas podem parecer ineficientes. “Elas têm um efeito de inclusão social significativo, já que pressupõem um modelo coletivo e democrático de gerenciamento do empreendimento e de autogestão, o que muitas vezes pode representar um ganho maior que a renda.” Dentre muitos casos pesquisados, ela cita o exemplo de um grupo de mulheres empreendedoras gaúchas cuja organização levou a que elas se mobilizassem contra a violência doméstica, passassem a desempenhar uma liderança política na sua comunidade e retornassem aos estudos.
No Rio Grande do Sul, onde o cooperativismo é forte, a maior parte das experiências formalizadas da economia solidária ocorre no meio rural ou, em menor escala, por meio de empresas autogestionadas. “No meio urbano é mais difícil essas iniciativas se consolidarem, em função das características da pobreza urbana.” Adriane considera, no entanto, que os ganhos sociais significativos muito provavelmente serão registrados apenas em médio e longo prazo, já que se trata de processo de inclusão de pessoas que vivem “um processo histórico de degradação” e, no caso do Brasil, ser iniciativa recente. “Quem conceber os empreendimentos de economia solidária como ilhas de prosperidade em contexto de precariedade corre sério risco de ter frustradas suas expectativas”, adverte. “Uma conquista importante é que o movimento conseguiu pautar na agenda política um conjunto de iniciativas públicas, em especial na última década. Hoje, por exemplo, já existem recursos para pequenos empreendimentos e programas vinculados à formação destes empreendedores.” A economia solidária, sublinha, não é panaceia para a pobreza – “seria até pretensioso pensar assim!” –, mas se inscreve no campo das “alternativas para a pobreza” e vai além, quando propõe um projeto de desenvolvimento pautado na sustentabilidade, na justiça social e econômica e na democracia participativa, ela acrescenta.
Na avaliação da coordenadora do projeto temático apoiado pela FAPESP, a baixa repercussão do cooperativismo solidário na renda reforça a cultura do assalariamento, sobretudo quando os indicadores de emprego estão em ascensão. “No Brasil, a cidadania regulada, tendo como referência o trabalho formal, impacta a construção identitária do trabalhador e suas perspectivas futuras no mercado de trabalho.” Assim, a ideia de autogestão ou de propriedade coletiva dos meios de produção não aparece como possibilidade a ser conquistada. “A construção de uma nova cultura do trabalho associado supõe uma vontade política que se expresse em políticas públicas para  mudanças efetivas nas prioridades e nos rumos do desenvolvimento econômico, dando primazia ao trabalho frente ao capital.”

terça-feira, 7 de maio de 2013

Europa, Japão, Austrália e Coreia do Sul recusam sementes transgênicas e animais alimentados com transgênicos

Alimentos transgênicos têm gerado efeitos preocupantes na saúde de animais e humanos, que têm se tornado cada vez mais evidentes.
Ricardo Souza, diretor-executivo da Abrange (Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não-Geneticamente Modificados), disse que Europa e países como Japão, Austrália e Coreia do Sul recusaram alimentos geneticamente modificados.
“[Estes países] não querem ver transgênicos na mesa deles de jeito nenhum, nem que os animais que comeram transgênicos cheguem às suas mesas”, disse o diretor-executivo recentemente à Agência Brasil.
Essas decisões têm fundamentos bastante sérios.
Em setembro de 2012, o CRIIGEN (Committee for Research and Independent Information on Genetic Engineering), uma equipe de cientistas dirigida pelo professor Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen, na França, divulgou os resultados de uma pesquisa sobre a alimentação transgênica em ratos. Durante dois anos os ratos foram alimentados com milho transgênico NK 603, junto ou não com o herbicida glifosato, ambos da Monsanto (a maior indústria de OGMs e transgênicos do mundo). Muitos ratos desenvolveram tumores renais e enormes tumores mamários, e a taxa de mortalidade foi mais elevada que a normal (veja o documentário “OGM: o momento da verdade”)
O governo italiano também investigou o uso alimentar do milho geneticamente modificado da Monsanto em ratos e os resultados mostraram diversas reações anormais em seu sistema imunológico, compatíveis com estados alérgicos, infecciosos e inflamatórios, que aparecem em doenças como artrite, esclerose múltipla e câncer.
Num estudo com outro tipo de milho geneticamente modificado da Monsanto, surgiram alterações imunológicas nos ratos que são encontradas em doenças como asma, intoxicações hepáticas e renais. Os cientistas concluíram que os OGMs e transgênicos testados provocam alterações perigosas em animais, são um risco para a saúde humana e precisam de estudos e pesquisas muito mais sérias e profundas.
Depois das pesquisas da equipe francesa liderada por Séralini, por exemplo, sabe-se que o consumo de um dos tipos de milho geneticamente modificados pela Monsanto aumenta em três vezes o risco de câncer.
Em várias partes do mundo animais vêm apresentando problemas depois do início da alimentação com grãos geneticamente modificados.
Jeffrey Smith, diretor do ‘Institute for Responsible Technology’perito em OGMs e transgênicos,viajou pelo mundo pesquisando animais alimentados com OGMs e transgênicos.
“Quando permitem que o gado se alimente de plantas de algodão-Bt (algodão transgênico), depois da colheita, milhares de ovelhas, cabras e búfalos morrem. Muitos outros adoecem. Visitei uma aldeia onde durante sete ou oito anos permitiram aos búfalos pastar plantas de algodão natural sem nenhum problema. Porém, em 3 de janeiro de 2008, permitiram aos seus 13 búfalos pastar algodão-Bt pela primeira vez. Depois de um único dia, todos morreram. Essa aldeia perdeu igualmente 26 cabras e ovelhas”, disse  Jeffrey num comunicado do Instituto.
Nos EUA, criadores de porcos e vacas também têm enfrentado problemas depois da introdução da ração transgênica: muitos porcos machos têm se tornado estéreis e vários problemas de fecundação vêm ocorrendo com porcas e vacas, tais como pseudo-gravidezes, incapacidade de formar fetos e outros problemas desenvolvidos.
Jerry Rosman, ex-criador de porcos nos EUA, é um dos prejudicados: perdeu US$ 1 milhão, sua fazenda e praticamente tudo o que tinha, devido a esses graves problemas reprodutivos. Numa entrevista dada a Jeffrey Smith, no documentário “Monsanto: patente do gene do porco”, Jerry diz: “Sabe-se que eles [indústrias de transgênicos] nos mentiram. Disseram que esses produtos eram seguros. Foram oferecidos a nós e por fim descobri que não haviam sido testados.”
Mas Jerry persistiu e vem fazendo estudos com gado: “Há quatro anos esses animais eram estéreis. Retiramos o milho [geneticamente modificado], fizemos com que comessem grama verde e eles se reproduziram.”
Problemas na saúde humana
A revista científica ‘Reproductive Toxicology’ publicou um estudo feito por médicos canadenses no Sherbrooke University Hospital, o qual revelou a presença da toxina Bt do milho transgênico no sangue de mulheres grávidas e de seus fetos, e também em mulheres não grávidas. Nesse estudo, a toxina Bt foi encontrada em 93% das mulheres grávidas, em 80% dos bebês e em 67% de mulheres não-grávidas.
Isso significa que a toxina Bt introduzida por manipulação genética nos grãos de milho passa sem nenhuma dificuldade para o sangue humano, o que contraria as repetidas afirmações das indústrias e dos cientistas que produzem transgênicos – e até mesmo da Agência de Proteção Ambiental dos EUA – que garantiam que a toxina seria destruída em nosso estômago, durante o processo digestivo, e não haveria nenhum risco para a saúde humana.
A toxina Bt deriva de uma bactéria encontrada no solo chamada Bacillus thuringiensis. O pedaço do gene da bactéria que produz essa toxina (que rompe o estômago de certos insetos) é introduzido artificialmente no gene do milho, que, depois disso, transforma-se no transgênico “milho-Bt”.
Ao contrário de serem inofensivas, as plantas transgênicas-Bt têm se mostrado bastante tóxicas. Milhares de trabalhadores rurais têm manifestado sérios problemas alérgicos, necessitando do uso contínuo de remédios, apenas por trabalharem com algodão transgênico que produz a toxina Bt: erupções cutâneas por todo o corpo, alergias respiratórias, coceiras constantes etc.

Carta-denúncia aberta ao governo da Califórnia


Carta-denúncia aberta ao governo da Califórnia

Organizações e ativistas do Estado do Acre e do Brasil denunciam o governo da Califórnia (Estados Unidos) bem como o governo do Estado do Acre (Brasil) e Chiapas (México) em acordos para a aquisição de créditos REDD+. Segundo a carta "se este processo de consulta no Acre for deixado apenas nas mãos do governo do estado, dificilmente se pode esperar a realização, de fato, de uma ampla consulta que permita às populações afetadas darem ou não seu consentimento livre, prévio e informado à proposta".

Eis o documento na íntegra:

Na propaganda do governo do Acre, desde que ele começou a atuar na linha de REDD+, “serviços ambientais” e “economia verde”, aparece fortemente um novo conceito: a ideia da “floresta em pé” como o “caminho das pedras” para obter dinheiro da “preservação” e “redução” de emissões, com a possibilidade de continuar explorando a floresta, resultando em ainda mais dinheiro e lucro. O conceito do próprio REDD+ também ajuda: não se trata de parar com o desmatamento, mas apenas reduzi-lo.  E de fato, o desmatamento no Acre não parou quando o governo estadual, chamado de “Governo da Floresta”, começou a governar em 1999: ele aumentou de 5.300 km2 entre 1988-1998 para 7.301km2 na década seguinte.  


Ao:
- governador de estado da Califórnia, Sr. Jerry Brown
- grupo de trabalho sobre REDD ´offsets´ da Califórnia
Cc.: Sra. Mary Nichols (presidente do Conselho de Recursos do Ar da Califórnia), Sra. Ashley Conrad-Saydah (Secretário Assistente para Politica do Clima da Agência de Proteção Ambiental da Califórnia), Sr. ArsenioMataka (Sub-secretário para assuntos de justiça ambiental e questões indígenas da Agencia de Proteção Ambiental da Califórnia), Sra. La Ronda Bowen (Ombudsman da Agencia de Proteção Ambiental da California)

Nós, organizações e ativistas do Acre e do Brasil, denunciamos a proposta do governo do estado da Califórnia nos EUA de querer “reduzir” suas emissões de CO2 com a “aquisição” de créditos REDD+ dos estados do Acre e Chiapas. Isto em vez de fazer essa “redução” na própria Califórnia. Somos contrários a esta proposta e denunciamos o processo de “consulta” em curso sobre este tema na Califórnia porque ele carece de legitimidade pela falta de participação efetiva das populações do Acre e de Chiapas que dependem das florestas para manter seu modo de vida e que serão diretamente afetadas pela proposta REDD+ da Califórnia. Além disso, o REDD+ não será capaz de reduzir as emissões de carbono no mundo e muito menos a destruição da floresta; aprofunda injustiças sociais e ambientais existentes; criminaliza práticas tradicionais das populações/povos/comunidades da floresta e tem um caráter profundamente neocolonial.

Está em curso um processo naCalifórnia para avaliar as formas como o governo desse estado deve incluir créditos REDD+ em seu sistema de mercado de carbono. Segundo esse governo, a inclusão de créditos REDD+ estaria contribuindo com seus esforços de reduzir, na Califórnia, as emissões de CO2. Recentemente, um grupo de trabalho na Califórnia tem feito recomendações sobre o assunto e abriu um prazo para enviar comentários por escrito, além de organizar três oficinas na Califórnia, até o dia 30 de abril de 2013.  Depois desta data, o grupo de trabalho afirma queencaminhará seu parecer ao governo da Califórnia, dando por encerrada a “consulta”.

O grupo de trabalho formado na Califórnia afirma ainda que hoje o Acre seria o estado mais preparado – mais que o de Chiapas - para fornecer os créditos REDD+ que a Califórnia quer ter, e por cima numa forma considerada “pioneira”, pela qual o estado inteiro desenvolveria uma série de atividades que reduziriam as emissões de carbono, o que seria mais significativo e eficiente que projetos individuais de REDD+. 

O mesmo grupo de trabalho também afirma que o Acre hoje é a “jurisdição REDD+ mais avançada” do mundo. Mas o que há de “avançado” na proposta da Califórnia de não querer resolver, no seu território, um grave problema, da poluição local e da emissão de gases de efeito estufa, que é da responsabilidade dela? O que há de “avançado” em querer resolver esse problema a partir de ações que afetarão negativamente a vida de populações no Brasil e no México?

Califórnia quer aprovar a inclusão de créditos REDD+ no seu sistema de redução de emissões sem ouvir aquelaspartes que serão afetadas pelas atividades REDD+.
O Governo da Califórnia, ao não abrir agora um amplo processo de consulta - no interior das comunidades que dependem das florestas e serão afetadas pela proposta REDD+ - sobre a “aquisição” dos créditos REDD+ no Acre e também em Chiapas, acaba violando o principio amplamente aceito a nível internacional do Consentimento Livre, Prévio e Informado. Este princípio dá a comunidades locais, indígenas e outras tradicionais o direito de opinar sobre quaisquer propostas que implicam em mudanças no seu modo de vida e/ou intervenções em seus territórios. As comunidades têm o direito de serem informadas e opinar sobre todos os aspectos da proposta, de forma livre e sem pressão, e, o que é muito importante, essas comunidades têm o direito de aceitar ou rejeitar essas propostas, e essas decisões precisam ser respeitadas.  O governo da Califórnia, ao disponibilizar apenas informação pela internet – inacessível a muitos no Acre - e apenas em inglês – fala-se português no Brasil, além de diversas línguas indígenas - e ao não organizar nenhum tipo de consulta local especifica no Acre, viola gravemente este principio.

O fato de propostas relacionadas ao REDD+ estarem sendo implementadas sem o consentimento da população afetada é algo sistemático. O mesmo ocorreu no processo de aprovação da lei 2.308/10 que criou o Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA). Apesar do governo do Acre afirmar que a lei do SISA“resulta de ampla discussão com a sociedade acreana”, essa “sociedade acreana” se restringiu na prática a um grupo seleto de atores do governo, consultores próximos ao governo do estado,além de grandes ONGs em sua maioria internacionais. Comunidades no interior do Acre que dependem das florestas não puderam conhecer a lei e muito menos discutir a mesma, até porque a primeira versão foi feita em inglês com um conteúdo extremamente técnico. Atualmente o Ministério Público Federal investiga a constitucionalidade desta lei, o que põe em cheque a suposição do governo  da Califórnia de que o estado do Acre estaria de fato preparado para oferecimento de créditos de carbono florestal ao mercado de compensações sem a existência de riscos de governança e legitimidade.

REDD+ não será capaz de reduzir as emissões de carbono no mundo, nem a destruição da floresta. 

REDD+ se baseia em suposições pelas quais “especialistas” interessados em promover o REDD+ comparam duas situações hipotéticas: por um lado, o que se espera que ocorra com a floresta  em função dasatividades de REDD+ e, por outro lado, aquilo que teria ocorrido sem o REDD+, mas que ninguém nunca vai poder comprovar. Abre-se, com isso, uma margem de incertezas tão grande que faz com que o REDD+ tenha se tornado uma proposta altamente passível de fraudes e corrupção, como já há casos sendo investigados internacionalmente. Mas, também por isso, o REDD+ se tornou uma proposta considerada atraente por aqueles que querem lucrar com a floresta.

Na propaganda do governo do Acre, desde que ele começou a atuar na linha de REDD+, “serviços ambientais” e “economia verde”, aparece fortemente um novo conceito: a ideia da “floresta em pé” como o “caminho das pedras” para obter dinheiro da “preservação” e “redução” de emissões, com a possibilidade de continuar explorando a floresta, resultando em ainda mais dinheiro e lucro. O conceito do próprio REDD+ também ajuda: não se trata de parar com o desmatamento, mas apenas reduzi-lo.  E de fato, o desmatamento no Acre não parou quando o governo estadual, chamado de “Governo da Floresta”, começou a governar em 1999: ele aumentou de 5.300 km2 entre 1988-1998 para 7.301km2 na década seguinte.  A atividade madeireira, uma das mais destrutivas para a floresta, continua prioritária, sendo a mais lucrativa entre todos os tipos de “manejo florestal”.  É exatamente a “floresta em pé” que viabiliza a chamada atividade madeireira “sustentável”: na última década, a exploração madeireira no Acre aumentou de 300 mil m3/ano para um milhão m3/ano em 2010, cerca de 75% em áreas com “planos de manejo florestal sustentável”, em parte certificada pelo FSC. O resultado, obviamente, é um aumento significativo na degradação e, portanto, também da destruição florestal.

A destruição ambiental causada pela extração de madeira ficou explícita em 2011 nas denúncias feitas por populações extrativistas e organizações sociais sobre as atividades da empresa Laminados Triunfo. As famílias que tentam resistir na área de atuação da Triunfo denunciaram a degradação dos corpos hídricos (igarapés) na região, o afastamento da caça, a destruição da floresta e de estradas em função da contínua retirada de madeira pela ´Laminados Triunfo´, uma empresa portadora do selo verde do FSC para parte de suas áreas de “manejo sustentável”. Com a atuação da Triunfo, a área para as famílias seringueiras fazerem suas atividades diárias ficou reduzida a cerca de 10% daquela que seria necessária para elas manterem seu próprio sistema de manejo, que não se baseia na extração da madeira, mas que fica cada vez mais difícil de ser mantido. 

Enquanto isso, o rebanho bovino – outra causa notória e histórica de destruição da floresta na Amazônia – aumentou de 800 mil cabeças em 1998 para 3 milhões em 2010, representando um outro dado preocupante.

REDD+ aprofunda injustiças sociais e ambientais

Apesar de todos os documentos no Acre que defendem o REDD+ falarem da importância das populações que dependem das florestas, o REDD+ e, de forma mais geral, a “economia verde”, baseada na comercialização de “serviços ambientais” e na exploração “sustentável” dos recursos florestais, é uma proposta com uma visão reduzida da floresta, buscando beneficiar interesses empresarias e um pequeno grupo ligado ao governo, enquanto aprofundará injustiças ambientais e sociais já existentes. Por exemplo, pode-se dizer que essa proposta criou mais obstáculos aos processos de demarcação das terras indígenas no estado, que se encontram paralisados, com exceção do processo dos Apolima-Arara – e, mesmo assim, essa terra encontra-se invadida por não-índios. Há pelo menos 18 terras indígenas a serem demarcadas, mas não há avanços devido à influência de fazendeiros e madeireiras.  Além disso, a situação na área de saúde e educação dos indígenas e também das populações extrativistas continua alarmante. O descaso das autoridades levou, dentre outras coisas, à morte de 22 crianças indígenas com menos de cinco anos de idade em 2011, nas aldeias dos povos Madjá (Kulina) e Hunikui (Kaxinawa), da terra indígena Alto Purus, município de Santa Rosa do Purus. Descaso também verificado na área da educação. Escolas indígenas localizadas nas cabeceiras dos rios e igarapés, não raras vezes, se encontram em estado deplorável, sem falar da qualidade do ensino. Das cerca de 120 escolas indígenas, apenas 10 estão em boas condições.

Os projetos que envolvem o pagamento por serviços ambientais liquidam a relativa soberania de “populações extrativistas” sobre seus territórios. Contratos têm sido assinados de, no mínimo, 30 anos, o que significa que não podem mais mexer na sua área durante esse tempo, não podem tirar madeira para seu próprio uso, não podem mais caçar e pescar. Trata-se de um confinamento da população no seu próprio território e de criminalização das praticas tradicionais de manejo e de relação das comunidades com a floresta que as tem preservado ate agora. Com uma série de restrições, as populações extrativistas estão sendo, de certa forma, “punidas” pelo fato ”de virem conservando a floresta” de uma forma que incluía fazer pequenas roças de subsistência, utilizando o fogo controlado. Como compensação paga-se um valor muito pequeno, que mais desestimula a população extrativista a continuar na floresta do que resulta em uma valorização do seu modo de vida. Os primeiros projetos REDD+ no estado seguem nessa mesma linha, levando às mesmas proibições, com o recebimento de pequenas “compensações”.

Curiosa e contraditoriamente, cada vez mais, as populações que dependem das florestas estão sendo levadas a participar de projetos de manejo para extração de madeira, sob a promessa de que ela será feita de forma “sustentável” e “certificada”. Trata-se de uma atividade que não está entre as demandas tradicionais dessas populações na sua luta árdua por seus direitos para melhorar sua qualidade de vida; mas há fortes interesses empresariais por trás desses projetos, que atuam com o aval do governo do estado.

Ao mesmo tempo, identifica-se o aumento na concentração da terra no estado do Acre nos últimos anos, um problema estrutural que precisa ser resolvido se o Brasil quer mesmo ter justiça social no campo e na floresta. Em 2003, 444 proprietários controlavam 2,8 milhões de ha de terras no Acre; em 2010, 583 proprietários ocuparam 6,2 milhões de hectares de terras, o equivalente a 78,9% do total das terras cadastradas nesse ano, uma intensificação brutal da concentração fundiária. Contribuiu para esse processo a legalização de terras ocupadas ilegalmente por grandes proprietários na Amazônia, através do Programa “Terra Legal” do governo federal.

REDD+ é uma proposta neocolonial

REDD+ é uma ideia que não nasceu em nenhuma aldeia indígena ou comunidade extrativista na floresta do Acre; nasceu em esferas internacionais, juntando, entre outros, (1) interesses preservacionistas de grandes ONGs ambientalistas do Norte, (2) interesses de governos nacionais e subnacionais do Norte para encontrar alternativas mais baratas para supostamente “compensar” suas emissões não reduzidas e excessivas de poluentes e gases de estufa, (3) interesses de governos nacionais e subnacionais do Sul em captar recursos para “cuidar” das florestas em seus países, (4) interesses de empresas que podem ser beneficiadas portítulos de “compensação” negociáveis no mercado, inclusive com sua especulação em mercados secundários (de derivativos), o que permitiria continuar a destruição da floresta para extrair madeira, minério, petróleo, plantar monoculturas, etc., e aumentar seus negócios, (5) interesses de consultores e outros atores ligados ao capital financeiro que pretendem fazer da floresta, ainda pouco “explorada”, um novo mercado para esse tipo de capital, comercializando “serviços ambientais” – como o carbono e outros.

Desta forma, o REDD+ tem se desenvolvido numa proposta que está sendo defendida, e muitas vezes imposta, por esse conjunto de interesses, muitos do Norte, em países e áreas com florestas tropicais do Sul como, por exemplo, no Acre. A proposta é instituída de cima para baixo sobre comunidades que dependem das florestas, apresentada por seus defensores como a “única” forma hoje possívelde se salvar as florestas, sem se preocupar com a necessidade de explicitar todas as questões em torno deste mecanismo nem com a linguagem complexa das diversas leis, regulamentações, políticas, etc. É pouco comentado o fato de que o REDD+ é cada vez mais questionado internacionalmente, sendo que ainda não existe um acordo internacional sobre o tema, por uma série de fatores: por exemplo, as justificadas dúvidas em torno da sua eficácia como forma de mitigar a crise climática (uma vez que mais de 80% das emissões antrópicas de GEE relaciona-se a queima de combustíveis fosseis e sua responsabilidade não pode ser transferida do Norte para o Sul, ou para os povos da floresta), assim como as violações e problemas já observados nas comunidades que dependem das florestase estão envolvidas nos diversos projetos pilotos REDD pelo mundo afora.

Uma das coisas que mais chama atenção negativamente na ideia do REDD+ é seu caráter neocolonial: mais uma vez, os antigos colonizadores da Europa e de outros países industrializados do Norte, como os EUA, estão querendo investir em uma atividade que representa basicamente o “roubo” de mais uma “matéria prima” nos territórios dos povos do Sul: as “reservas de carbono” presentes em florestas. Ou seja, estes mecanismos buscam transferir o direito, não sobre a terra, mas sobre o “carbono”, e assim sobre o projeto futuro de uso e manejo dessa terra, ainda que pertença ao Estado, aos povos indígenas ou as comunidades tradicionais, para as mãos das corporações que o adquirem por suposta compensação de sua poluição e para os bancos que os negociam nos novos mercados especulativos criados pela onda da economia verde. Isso para, de forma barata, poder manter um padrão de vida que não é permitido, nem é viável, para a maioria da população mundial.  No caso da Califórnia, entre as 10 maiores economias do planeta, aceitar o REDD+ no seu esquema de redução de emissões poluentes, significa, simplesmente, que em vez de reduzir drasticamente a poluição das suas atividades econômicas, com os graves problemas ambientais, climáticos e de saúde publica resultantes para o povo e a natureza da Califórnia e do mundo, esse estado busca mudar o modo de vida das populações que dependem das florestas no Acre e México, que não são responsáveis pelo problema, para que um determinado “estoque de carbono” se mantenha preservado. 
Conclusão

Por tudo isso, denunciamos a ilegitimidade deste processo e recomendamos ao governo da Califórnia que anule o mesmo, caso não faça, a curto prazo,  uma ampla consulta aos afetadosnos territórios de onde pretende obter os créditos REDD. Alertamos de antemão que, se este processo de consulta no Acre for deixado apenas nas mãos do governo do estado, dificilmente se pode esperar a realização, de fato, de uma ampla consulta que permita às populações afetadas darem ou não seu consentimento livre, prévio e informado à proposta.

Mas, devido às incertezas e às injustiças em torno do mecanismo REDD+, a melhor opção para o estado da Califórnia seria mesmo desenvolver um abrangente projeto de redução de emissões no seu próprio estado. Isso não apenas seria um sinal ao governo do estado do Acre de que não há perspectivas para que ele e um pequeno grupo próximo atraiam volumosos recursos, sujeitos a fraudes e corrupção, em nome da “preservação da floresta”, mas também beneficiaria, antes de tudo, as populações no Acre, que não seriam usadas para resolver os problemas de poluição de um estado e país que elas não conhecem, pelos quais não têm nenhuma responsabilidade. Essas populações têm exigido nos últimos anos, em diversas instâncias, que a Constituição do país seja cumprida e os direitos fundamentais nas áreas de saúde, educação e regularização de territórios sejam garantidos. A politica da “economia verde” no Acre tem trazido mais problemas para os povos que dependem das florestas e, para piorar, causam divisões nessas populações em função do processo forte de cooptação de lideranças pelo governo do estado.

Através desta carta-denúncia aberta, não queremos deixar de nos solidarizar com as populações vizinhas das indústrias poluidoras da Califórnia. Elas também precisam ser ouvidas, especialmente sobre o que elas pensam a respeito da poluição que afeta a sua saúde e a dos seus filhos. O que elas propõem para melhorar o bem-estar das suas comunidades? Será que o REDD+ é o caminho, sendo que representa na realidade mais poluição para elas e, com isso, mais injustiças ambientais e sociais? Esperamos que haja um amplo processo de consulta a essas populações, até porque a crise climática faz com que precisemos de muita sabedoria, que só virá de um processo de construção de alternativas que envolva a todas e todos, sobretudo aqueles que hoje mais sofrem com a grave poluição continuada nos países do Norte, com matriz energética baseada em combustíveis fósseis. Certamente, não podemos ser guiados pelo oportunismo e irresponsabilidade de poucos para lidar com o futuro das populaçõese do planeta, no Norte e no Sul.

Subscrevem:

Organizações

MIU – Movimento Indígena Unificado do Acre e Sul do Amazonas - Acre
Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras
FEPHAC – Federação do Povo Huni Kui do Acre
Centro de Concentração Indígena Yuna Baka Nai Bai
CIMI – Conselho Indigenista Missionário
Movimento Mulheres pela PAZ!
Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social
Coordenação da Licenciatura em Educação do Campo/UFPA/Campus Marabá
Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul/BA – CEPEDES
Associação dos Geógrafos Brasileiros - GT Meio Ambiente AGB
Amigos da Terra Brasil
Movimento de Mulheres Camponesas- MMC-Brasil
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC
CEPASP - Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular
Movimento Debate e Ação.
CIMI – Regional Amazônia Ocidental (Acre e Sul do Amazonas)
ENCONTTRA - Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra
CEPASP - Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular. Pará-Brasil
Conselho de Missão entre Índios – COMIN Assessoria Acre e Sul do Amazonas
Grupo de Estudo sobre Fronteira e Identidade - Universidade Federal do Acre -UFAC
Movimento Debate e Ação - Pará-Brasil
Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental -Universidade Federal do Acre - UFAC.
Programa de Extensão  em Direitos Humanos na Fronteira Tri nacional do Brasil, Bolívia e Peru - Universidade Federal do Acre – UFAC
Terræ, Organização da Sociedade Civil
ITEREI- refúgio particular  de animais nativos -membro oficial da sociedade planetária 
Centro de Referência do Movimento da Cidadania pelas Águas Florestas e Montanhas -  Iguassu Iterei


Individuos

Aristides Arthur Soffiati Netto-Pesquisador da Universidade Federal Fluminense e ativista ecologista.
Dercy Teles de Carvalho Cunha - STTR de Xapuri/AC
João da Silva e Mª da Graças S. da Silva STTR de Capixaba/AC
Profª Econ. Amyra El Khalili
Sebastião Ferreira da Silva - STTR de Epitaciolandia/AC
Elder Andrade de Paula - Prof. Universidade Federal do Acre – UFAC - Acre
Maria de Jesus Morais - Profª . Universidade Federal do Acre – UFAC - Acre
Marcus Vinicius Gonzales Franco - Acre
Michael Franz Schmidlehner - Amazonlink - Acre
Amilton Pelegrino de Mattos -  Universidade Federal do Acre -UFAC-PNSC - Acre -
Mariana Pantoja - Universidade Federal do Acre -UFAC-PNSC- Acre
Angelica do Carmo - Escola Construindo o Jardim -  Acre
Valquiria Garrote - Universidade Federal do Acre -UFAC - Acre
Andre Pitera - Acre
Enaiê Mairê Apel -  Estudante Universidade Federal do Acre -UFAC - Acre
Vitor Cerqueira Gois - Acre
Isaias Sales - Movimento dos Artistas Huni Kui - MAHKU
Francisco Luiz Silva – Organização dos Povos Indígenas do rio Juruá - OPIRJ - Acre
Aldemir Mateus Kaxinawa - Associacao de Culturas Indigenas do Humaita  - ACIH - Acre
Cleber Pinheiro Sales - Movimento dos Artistas Huni Kui - MAHKU
Valdecir Sergio da Silva Kaxinawa - Acre
Acelino Sales - Movimento dos Artistas Huni Kui - MAHKU - Acre
Jose Luiz Henrique Marceno Kaxinawa - Movimento dos Artistas Huni Kui
- MAHKU - Acre
Antonio Teixeira de Costa - Comunidade Cinco Voltas - Reserva
Extrativista RESEX Alto Jurua  Acre
Jose do Nascimento Freitas  - Comunidade Cinco Voltas - Reserva
Extrativista RESEX Alto Jurua  Acre
Jucelino Rodrigues - Reserva Extrativista RESEX Alto Jurua  Acre
Bruno Emílio Fadel Daschieri – Antropólogo Consultor - Acre
José Carméli Huni Kui – Ninawa Huni Kui – Federação do Povo Indígena Huni Kui Acre
Lucila da Costa Moreira Nawa – Liderança feminina do povo Nawa- Acre
Francisco Siqueira – Cacique do povo Apolima-Arara – Acre
Raimundo Nonato de Carvalho – Presidente do CEFIN – Centro de concentração Huni Kui
Zezinho Martins – Cacique Huni Kui – Feijó Acre
Antônio Carlos Keã – Professora Huni Kui – Envira – Acre
Edino Odete Jaminawa – Liderança  do povo Jaminawa – Sena Madureira – Acre
João Kampa – Cacique do povo Ashaninka – Feijó – Acre
Nilson Emílio da Silva – Liderança do povo Manchineri – Assis Brasil – Acre
Raimundo Kampa – Cacique do Povo Ashaninka – Feijó – Acre
Airton Silva de Oliveira – Professor Ashaninka – Alto Envira – Acre
Rubens Barbosa – Liderança Huni kui – Feijó – Acre
Pedro Barbosa – Cacique do povo Huni Kui – Aldeia Pupunha – Acre
João Domingos Kaxinawa – Liderança Huni Kui  - Santa Rosa do Purus – Acre
Almir Kulina Nagib – Cacique do povo Madjá – Alto Envira – Acre
João Diniz Nawa – Cacique do povo Nawa – Mâncio Lima – Acre
Peres Kulina – Cacique do povo Madjá – Feijó – Acre
Dimas Oscar Jaminawa – Cacique Jaminawa – Sena Madureira – Acre
Marina Maria Jaminawa – Cacique e líder feminina do povo Jaminawa – Sena Madureira – Acre
Francisco Saldanha Jaminawa – Cacique Jaminawa da Aldeia São Paolino - Acre
Enviado por Andrei Cardoso