quinta-feira, 5 de julho de 2012

Agroecologia: caminhos para o futuro


Em tempos de Rio+20, a humanidade vive uma encruzilhada civilizatória. A crise ambiental que vivemos não tem precedentes. 

É preciso mudar com urgência os rumos do desenvolvimento.

Muito da crise se deve ao sistema agroalimentar industrial, insustentável, que desmatou, matou ecossistemas e expulsou populações para dar lugar a monocultivos para exportação. Um sistema que usa mecanização pesada, agrotóxicos e sementes transgênicas produzidas por empresas multinacionais. As consequências são a expulsão de agricultores familiares para os centros urbanos, perda de solos e de biodiversidade, assoreamento e poluição de cursos d’água, contaminação dos alimentos. Esse modelo contribui para o aquecimento global, emite gases de efeito estufa porque desmata florestas e depende de queimar petróleo para fabricar fertilizantes e fazer a comida viajar longas distâncias.
Uma esperança
É nesse cenário que vem ganhando força no mundo um movimento contra-hegemônico: a defesa da agroecologia, uma ciência que aplica os princípios da ecologia à agricultura. Busca promover agriculturas em harmonia com a natureza, preservando florestas e águas, recuperando a fertilidade dos solos através do uso de matéria orgânica, promovendo a diversificação de cultivos e criações, com sementes crioulas produzidas pelos próprios agricultores, não usando agrotóxicos que poluem o ambiente e nem fertilizantes industriais que enfraquecem os solos. Com a agroecologia é possível produzir alimentos saudáveis, de alto valor biológico, livres de agrotóxicos e transgênicos. A ciência da agroecologia não é uma ciência autoritária e privatizada, mas democrática, pois respeita e valoriza os conhecimentos dos agricultores, e promove um diálogo destes com conhecimentos produzidos nas instituições de pesquisa.
Agroecologia é também um movimento social, pois defende propostas para a agricultura e luta por elas. O movimento agroecológico, que no Brasil tem como expressão política a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), é contra o latifúndio e defende a reforma agrária e o reconhecimento dos territórios tradicionais. Pois o desenvolvimento da agroecologia só acontece com uma agricultura familiar numerosa e forte. Também defende circuitos locais e solidários de produção e consumo de alimentos, crítico, portanto, aos impérios dos hipermercados.
Apesar das evidências dos impactos positivos da agroecologia, é necessário enfrentar mitos e construções ideológicas erguidos pelos defensores do sistema agroalimentar industrial. Este, para legitimar-se na sociedade como único caminho possível, desqualifica o enfoque agroecológico e a agricultura familiar como atrasados e incapazes de alimentar o mundo e promover desenvolvimento.
Os principais desafios da agroecologia são, portanto, de natureza política. Para enfrentá-los será necessário muita mobilização e resistência. Que sejam fortalecidas e multiplicadas experiências nos territórios, construídas redes solidárias entre o campo e cidade, e que se lute pela democratização do Estado e a construção de políticas públicas capazes de promover a agroecologia como o enfoque orientador para a agricultura e o meio rural, no Brasil e no mundo.
Denis Monteiro engenheiro agrônomo, secretário executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Rio de Janeiro, RJ.

Populações tradicionais e rurais avaliam riscos climáticos em suas comunidades

Fórum Carajás: Notícias
Foto: Fórum Carajás
Comunidade Quilombola de Barro Verrmelho 
discute riscos climáticos no seu Territórrio (Chapadinha/MA) Autor: 
Foto: Fórum Carajás
Comunidade Quilombola de Barro Verrmelho discute riscos climáticos no seu Territórrio (Chapadinha/MA)

Entre os questionamentos feitos aos resultados da Rio+ 20, um dos mais relevantes é o fato de o documento oficial – “O Futuro Que Queremos” – não levar muito em conta as contribuições dos modos de vida das comunidades e dos povos tradicionais como instrumento na luta contra as mudanças climáticas. O modo de vida dessas populações – de respeito ao meio ambiente e consumo sustentável dos recursos naturais – pouco influenciou o documento da ONU. Os líderes mundiais, principalmente das nações mais ricas, não abrem mão do crescimento contínuo.
Pequenos agricultores, pescadores e pescadoras artesanais, quilombolas e indígenas muitas vezes não participam das tomadas de decisões relativas ao meio ambiente, e no evento realizado este mês no Rio de Janeiro não foi muito diferente. Mesmo sem muito espaço para incidir no debate, são estas comunidades que sofrem diariamente as consequências das mudanças do clima.
Pensando nisso, o Programa Direito a Terra, Água e Território (DTAT) viabilizou que cinco comunidades de diversas regiões do país e localizadas em quatro biomas diferentes avaliassem os riscos climáticos que vivem e também planejassem ações de mitigação e adaptação às mudanças do clima. A avaliação foi realizada no processo de adaptação da Metodologia de Avaliação de Riscos Climáticos (CLIDES), desenvolvida pelas organizações Suíças HEKS e Pão Para Todos. “O debate sobre a crise ambiental pode colocar outras vozes na cena pública, que são ocultadas ou consideradas atrasadas”, afirmou Cristiane Faustino, do Instituto Terramar, entidade que integra o Programa DTAT no Ceará.
Foto: Terramar
Comunidade cearense na oficina sobre mudanças 
climáticas Autor: Foto: Terramar
Comunidade cearense na oficina sobre mudanças climáticas
Para ela, a chamada economia verde e o investimento tecnológico não são as únicas propostas que podem contribuir para reverter os grandes problemas ambientais enfrentados hoje. “Podemos aprender e encontrar soluções nas formas de vida destas comunidades”, lembrou. O modelo de desenvolvimento que expropria e expulsa as comunidades de seus territórios é o mesmo que compra ativos florestais, via mercado de carbono. “A contribuição das comunidades é, principalmente, na luta política por mudanças globais. O DTAT trabalha para que estas comunidades não estejam fora deste processo”, afirma Augusto Santiago, da CESE, que coordena o Programa.
Os encontros nas comunidades buscavam a adaptação da metodologia para as condições socioambientais brasileiras, levando em conta as diversidades dos biomas. “A metodologia nos ajuda a fazer uma releitura deste tema, que é amplo, relacionando-o com a vida cotidiana”, opinou a integrante do Terramar. Os encontros foram realizados com apoio da agência holandesa ICCO e da Embaixada Suíça no Brasil.
Os principais problemas percebidos pelas famílias estão relacionados à estiagem, ao aumento do calor, avanço do mar e mudanças nos ciclos de chuva. Os participantes também relataram a perda da diversidade de sementes. No semiárido, a intensificação da seca por períodos mais longos preocupa as comunidades. Já na Mata Atlântica e na Amazônia, a alternância de grandes secas com períodos de chuvas acima do normal estão entre as diferenças relatadas.
Foto: Fórum Carajás
Caminhada pelo Territórrio Quilombola de Barro
 Vermelho-Chapadinha(MA) Autor: Foto: Fórum Carajás
Caminhada pelo Territórrio Quilombola de Barro Vermelho-Chapadinha(MA)
De acordo com Sebastião Silva Pereira, da comunidade quilombola Barro Vermelho, que faz parte do Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba, foi muito importante trabalhar o tema dentro da comunidade. “É preciso mudar a forma de lidar com a terra e com a biodiversidade da nossa região para não degradar o meio ambiente. A metodologia facilitou trabalhar com o tema dentro da nossa realidade”.
O mais importante para Nair Martins Barbosa, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, foi perceber que a comunidade conseguiu ligar os pontos entre causas e consequências, como enchente e seca, com os problemas globais. “O mais importante foi o despertar para estes riscos que estão tão próximos e eles descobrirem que podem ser agente de mudanças no âmbito local”.
Sobre o Programa DTAT
O Programa DTAT, composto de 13 organizações brasileiras que trabalham pelo acesso de povos tradicionais aos seus territórios ancestrais, promoveu encontros sobre o tema com o objetivo de que os conhecimentos das comunidades tenham incidência nas decisões tomadas em espaços públicos. Além disso, foram realizados eventos para explicar a metodologia, cuja aplicação também foi apoiada pelo programa em todas as comunidades. Todo o processo recebe apoio da ICCO, agência Holandesa de cooperação e da Embaixada Suíça no Brasil.
Por: Bianca Pyl para o DTAT
www.forumcarajas.org.br
Enviado por Edmilson Pinheiro

“Feminicídio precisa ser visto como crime hediondo”

Em entrevista, a professora e socióloga Maria Dolores de Brito Mota explica por que mulheres continuam sendo assassinadas no Brasil
Maria Eduarda Carvalho, Revista Fórum
O feminicídio se difere do homicídio por se tratar de um crime cultural, motivado por discriminação de gênero. É o que explica, em entrevista à Fórum, Maria Dolores de Brito Mota, socióloga e professora da Universidade Federal do Cerará, UFC.
Maria Dolores, líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Gênero, Idade e Família da UFC, explica os motivos que levam ao crime de gênero, que vem aumentando principalmente entre adolescentes. A socióloga também discorre sobre o papel da mídia e chama a atenção para os efeitos práticos da criação de um sistema de informação nacional sobre feminicídio no Brasil. Confira a entrevista.
Revista Fórum – O Mapa de Violência 2012 publicado pelo Instituto Sangari revela que, entre 1980 e 2010, foram assassinadas aproximadamente 91 mil mulheres no país. Mais de 90% dos crimes ocorreram por questão de gênero, os chamados feminicídios. A que se atribui o feminicídio?
Maria Dolores – A uma cultura patriarcal machista e o nosso próprio código penal reflete essa cultura. Até pouco tempo era bastante aceitável, digamos assim, no âmbito do judiciário, as mortes por defesa da honra. Era um atributo que a sociedade patriarcal brasileira permitia. A própria novela Gabriela [atualmente exibida na rede Globo] retrata um caso desses. Era muito comum os homens se sentirem ofendidos quando as mulheres se envolviam em outras relações, bastava o simples ciúmes ou a recusa do fim do relacionamento, quando esse fim era colocado pela mulher. Na nossa cultura o homem define a relação, é o querer dele, o desejo dele que determina se uma relação continua ou não. E quando havia a recusa, quando o desejo da mulher se manifestava e ela não queria mais manter a relação naquele nível, o homem se dava ao direito de não aceitar e isso era levado até as últimas consequências. A cultura patriarcal é o que leva a um índice tão alto de feminicídio no Brasil.
Fórum – Muitas mulheres são, na verdade, meninas ainda, em grande parte adolescentes. O que esses feminicídios juvenis indicam?
MD – Essa é uma questão importante. As garotas cada vez mais jovens são alvo dessa violência de gênero, e não é só porque a gente vive uma cultura de violência generalizada. É que [a violência] sempre vai se voltar de forma mais forte para o sujeito colocado numa posição de vulnerabilidade e discriminação, como é o caso da mulher e da própria figura da menina, que é extremamente sexualizada. Estamos passando por um processo de sexualização da adolescência que estimula que as meninas sejam vistas e colocadas como objeto sexual. Isso é uma questão que o próprio movimento de defesa da criança e do adolescente vem se deparando. Há uma polêmica enorme, por exemplo, entre a secretaria de Direitos Humanos da presidência e a secretaria de Políticas para as Mulheres. Quando o movimento feminista trabalha com mulheres acima de 18 anos e encontram crianças de 11 ou 12 anos, que estão em situação de exploração sexual, eles encaminham para a secretaria de Direitos Humanos e para os movimentos em defesa da criança. Percebe-se que há uma ambiguidade, quem cuida dessas meninas? Isso é complicado, mas vejo esse fenômeno como um sinal de que há uma mudança na questão da adolescência. A infância está se encurtando muito. Isso ocorre por um processo cultural e, por outro lado, por conta da questão da sexualização muito forte na nossa cultura. Isto é uma outra discussão que precisamos fazer no Brasil: entender qual é o significado hoje da sexualidade, do corpo sem entrar em questões de moralidade.”
Fórum – Qual a responsabilidade da mídia no feminicídio a partir do momento em que os meios de comunicação colocam em destaque a figura do agressor?
MD – É preciso falar da forma como a imprensa aborda a questão do feminicídio, porque ela não aborda como crime de gênero. Hoje, a gente passa por um processo de democracia que abrange todos os níveis da sociedade, por que a imprensa também não se compromete com isso? Ela se compromete até certo ponto, mas é preciso muito mais. É preciso assumir alguns compromissos com a construção de uma cultura mais cívica, mais cidadã e abordar de uma maneira diferenciada a questão da criança e do adolescente no sentido de não colocar a criança como culpada, quando ela é, na verdade, vítima do abuso sexual. Há uma forma de abordar que acaba por culpabilizar a criança e desloca a questão central, que é onde a sociedade brasileira hoje coloca a criança e o adolescente.
A imprensa precisa fazer uma abordagem diferenciada, não sensacionalista, dos crimes de gênero. Quando a gente trabalha com dados de imprensa – como eu tenho trabalhado desde 2006 – a gente percebe que ela subnotifica. Por exemplo, no Ceará temos um índice de 153 mortes por crimes de gênero, mas só 60 são noticiados, tudo bem que não é a função da imprensa noticiar tudo, mas que noticie bem, procure fazer um jornalismo mais investigativo, mais descritivo, coloque as circunstâncias, busque identificar os autores, ouvir a família e pessoas envolvidas. Precisamos trabalhar essa questão da mídia, na perspectiva de construir valores para as pessoas não aceitarem mais esse tipo de violência contra mulher, porque quem lê a notícia é influenciado pelo que está escrito.
Fórum – No ano seguinte à criação da Lei Maria da Penha, em 2007, houve uma pequena redução na taxa de violência contra a mulher, mas logo as estatísticas alcançaram altos índices novamente. Em sua opinião por que esses números continuaram numa crescente? Quais as medidas para conter esses índices além de prender o acusado?
MD – Esse volume intenso é, de fato, a incapacidade de uma cultura machista, patriarcal de aceitar que as mulheres tenham autonomia e possam decidir as suas vidas. As mulheres avançaram muito, se empoderaram, se fortaleceram. Temos um marco regulatório que envolve um conjunto de informações: a Lei Maria da Penha, casas de referência, tudo isso para fazer com que a mulher se sinta forte para dizer não, eu não quero mais esse tipo de vida. Só que os homens não passaram por um processo de mudança de pensamento sobre a condição deles. Há uma incapacidade dos homens em lidar com essa nova mulher, e o Estado tem que criar leis no sentido de construir políticas que possam impactar toda a sociedade, mudando valores. No caso do feminicídio, defendo que ele seja incluído na Lei Maria da Penha e que se diferencie do homicídio. É um desafio fazer isso, mas esse é um crime diferente por ser um crime construído pela cultura. É preciso atribuir a ele uma penalidade de crime hediondo bastante severa. O problema também é a impunidade.
Fórum – A residência foi apontada em 40% das ocorrências como o local em que as mulheres foram assassinadas. Quais os danos que esses dados apontam na formação dos filhos e crianças que convivem com essas mulheres?
MD – No Brasil, isso ainda não está sendo trabalhado, mas as organizações feministas da América Latina de diferentes países estão bem avançadas nessa questão do enfrentamento do feminicídio e na questão dos filhos do feminicídio. E não é só filho, é toda uma marca que fica na família, quem vai cuidar dessa criança? É fundamental discutir isso no Brasil porque são muitas as crianças que presenciam o assassinato ou que encontram a mãe morta e sabem que foi o pai quem matou. É um desafio.
Fórum – Quais os efeitos práticos da criação de um sistema de informação nacional sobre feminicídio no Brasil?
MD – É difícil construir critérios unificados e distribuir por vários grupos em diferentes estados, mas a secretaria de Políticas para Mulheres tem condições de criar esse sistema de informação. Assim poderíamos sistematizar todos os dados sobre assassinato de mulheres, da imprensa ou da secretaria de segurança pública. Para ter acesso ao sistema judiciário, o juiz tem que autorizar, isso é uma limitação. Os dados que temos acesso são do laudo cadavérico, que não tem informações que digam quem matou aquela mulher, qual era a relação do assassino com a vítima, isso não aparece. A secretaria de Políticas para Mulheres pode estabelecer que as secretarias de Segurança de cada estado disponibilizem esses dados para construir um sistema de informação e que isso possa ficar disponível, porque a informação tem que ser pública. A transparência é fundamental, a secretaria tem muita coisa para fazer, mas isso é urgente.
Enviada por José Carlos.
http://revistaforum.com.br/blog/2012/07/feminicidio-precisa-ser-visto-como-crime-hediondo/
Enviada por Tania Pacheco  Por

Munduruku em Jacareacanga, no Pará, pedem presença do governador

Em reunião com policiais e representantes da Funai não houve acordo.
Governo enviou tropas de segurança para o município.

 

Não houve acordo durante a reunião realizada na noite desta quarta-feira (04) entre representantes da Superintendência Regional da Polícia Civil no Tapajós e da Fundação Nacional dos Índios (Funai) com os índios Munduruku que atacaram uma unidade da polícia militar no município de Jacareacanga, sudoeste do Pará. As negociações, porém, devem ser retomadas nesta quinta-feira (05).
Segundo o superintendente, ele e os dois representantes da Funai estão impedidos pelos indígenas de sair do município, porém os índios não teriam usado violência. Os Munduruku exigem a presença do governador, Simão Jatene, ou do Secretário de Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), no local.
A Segup enviou ao município de Jacareacanga um efetivo do Comando de Missões Especiais (CME), da Polícia Militar. A tropa é especializada em gerenciamento de crises e situações de alta complexidade. Uma equipe da Polícia Civil também seguiu para o município, para reforçar o trabalho dos órgãos de segurança. Porém os agentes aguardam o término das negociações para entrar no município.
Segundo o delegado geral da Polícia Civil no Pará, Nílton Athaide, não há insegurança em Jacareacanga, já que os indíos não praticaram nenhum outro ato deste o ataque a unidade da PM, porém o clima seria de tensão.
O protesto dos índios foi contra a liberação de dois dos quatro suspeitos de assassinar um Munduruku na semana passada no município. "Apenas dois participaram efetivamente do fato e, em relação aos outros dois, não tínhamos evidências e eles foram, nesse primeiro momento, liberados. Isso causou a indignação dos indígenas", explica Nílton Athaíde.
Uma das lideranças indígenas, por telefone, conversou com a reportagem da TV Liberal, em Belém, e disse que os índios perderam o controle durante o ato e que eles não planejavam destruir a unidade da PM. "A nossa proposta não era para quebrar a delegacia. Queríamos que os criminossos, que fizeram isso com nosso irmão fossem punidos. Ele não deveria ter morrido do jeito que morreu", explicou Waldemiro Manhauary, líder indígena.
Entenda o caso
Na madrugada da última terça-feira (03), além de incendiar a unidade da PM em Jacareacanga, cerca de 50 índios Munduruku teriam perseguido e atirado flechas contra os quatro políciais militares que trabalhavam no município.
"Eles nos seguiram em uma caçamba e em duas motos, mas nosso carro era mais rápido e eles não nos alcançaram. Eles atacaram a viatura com porretadas e flechas, mas não atropelamos nem atiramos em ninguém. Também tinham duas barricadas na estrada, mas conseguimos passar por elas e nos escondemos no mato. Então passamos a monitorar a situação por telefone com a ajuda de amigos que estavam na cidade", conta Antônio Cajado, Comandante da PM de Jacareacanga. Um dos policiais ficou ferido.
"Eles não chegaram para conversar com a gente. Chegaram já atirando flechas. Eu acho que eles foram lá para nos matar", considera o cabo Raimundo Nonato Rodrigues.
Segundo a polícia, na confusão, os índios retiraram do prédio duas armas tipo carabina e um revólver calibre 38.
Fonte:http://g1.globo.com/pa/para/noticia/2012/07/munduruku-em-jacareacanga-no-para-pedem-presenca-do-governador.html

Extração de buriti concilia geração de renda e conservação de espécie

Uma pesquisa de doutorado do Instituto de Biologia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), demonstra que comunidades rurais que fazem o extrativismo do buriti conquistam renda e colaboram com a conservação da espécie.

  www.brasil.agenciapulsar.org  
Buriti é a “árvore da vida”. (j. da unicamp)

A planta da qual se aproveita tudo, da folha ao óleo, é tratada como “árvore da vida”, sobretudo pelos trabalhadores. O engenheiro florestal Maurício Bonesso Sampaio demonstrou por meio de seu estudo que, mesmo que sejam removidos até 70% dos frutos pelas populações, a extração do buriti ainda não será de demasiado impacto.
Sampaio declarou ao Jornal da Unicamp que o extrativista não prejudica a semente pois, em sua atividade, apenas retira a polpa dos frutos. Como as sementes ficam intactas, se forem retornadas ao brejo, a reprodução do buriti seguirá o seu curso normal.
Os doces caseiros de buriti são os que mais agradam, sendo produzidos e comercializados no Brasil pelos próprios extrativistas, moradores das zonas rurais. Entretanto, outras indústrias também estão interessadas no seu óleo, em geral do ramo cosmético.
O buriti, o estudioso conta, é mais encontrado na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal e em uma pequena área da Caatinga. Em São Paulo, onde existe uma menor faixa do norte do estado, está classificado como “em perigo” na lista oficial das espécies da flora com risco de extinção.
Em sua tese, Sampaio ressaltou que a planta é ameaçada principalmente pelas queimadas e pelo desmatamento. A pesquisa também apresenta populações que estão reagindo a esse tipo de exploração. Para realizar o doutorado sobre o extrativismo familiar de buriti, o pesquisador focou sua investigação nos estados do Piauí e de Tocantins. (pulsar)
Fonte: http://www.brasil.agenciapulsar.org/nota.php?id=8943
Enviado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) agroecologia.org.br 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Estradas assassinas de um progresso vampiro

O sangue Kaiowá Guarani continua manchando o chão e o asfalto no Mato Grosso do Sul. Na Semana que termina foram três atropelamentos, com a morte de Aguinaldo e Wagner, estando Zezinho, liderança do acampamento Laranjeira Nhanderu, município de Rio Brilhante, na UTI em Dourados, em estado gravíssimo.

Tudo isso em conseqüência do atropelamento dos direitos desses povos, que por não terem sua terras demarcadas são jogados para a beira das estradas, onde sobrevivem em situações desumanas, submetidos aos constantes riscos de atropelamentos.

Damiana do Apyka'i - Plantando cruzes

Damiana, guerreira Kaiowa Guarani do tekohá Apyka'i, município de Dourados-MS é o símbolo desse sofrimento e resistência. Teve seu marido Hilário morto por atropelamento e neste último ano três filhos tiveram a mesma sina, morte por atropelamento.

Ir. Elisa, que trabalha com os Kaiowá Guarani, na equipe do Cimi Dourados, relatou a tragédia.

"Agnaldo Cari de Souza, filho de Damiana foi atropelado por  funcionário da usina que estava de moto (segundo Damiana) e morreu, na estrada a 100 metros do acampamento. Enterrado ao lado de seu irmão Sidnei que morreu atropelado no ano passado na mesma rodovia. Segundo Damiana este funcionário teria jogado diesel no barraco de Agnaldo dias antes do atropelamento.

Uma semana depois, seu outro filho, Wagner Freitas, é também atropelado e morre na hora. Foi enterrado ontem, 25 de junho, junto ao corpo de Sidnei e Agnaldo.

Veias abertas no Mato Grosso do Sul

Historicamente as estradas foram os caminhos das invasões dos territórios indígenas, os caminhos da morte e escravidão. Foram picadas, por entre a mata, que se transformaram em precários caminhos de caminhões que saquearam a madeira, depois se transformaram em estradas asfaltadas e se consolidaram como rodovia que cortam esse país em todas as direções como veias abertas de vidas sacrificadas por um desenvolvimento que se alimenta de sangue de tantas vidas, num processo de progresso vampiro. No Mato Grosso do Sul essa situação vem se agravando com o avanço célere do grande capital, na plantação de imensos canaviais para a produção de etanol e açúcar.

Guerreiro Zezinho, incansável lutador pelos direitos do Povo Kaiowá Guarani, representante dos acampamentos indígenas no Conselho de Aty Guasu, teu povo, tua comunidade de Laranjeira Nhanderu e seus amigos no país e no mundo estão contigo neste momento difícil, de dor e sofrimento. Que Nhandejara, te conserve a vida.

Zezinho acabara de voltar do Rio de Janeiro onde, juntamente com mais de uma centena de representantes indígenas do Mato Grosso do Sul, participou do Acampamento Terra Livre, na Cúpula dos Povos. Denunciaram em vários espaços a dramática situação dos povos indígenas, especialmente os acampados à beira da estrada. Ele acaba sendo mais uma das vítimas das dezenas de mortes por atropelamento que acontecem todo ano no Mato Grosso do Sul. Conforme o Relatório de Violência Contra dos Povos Indígenas – Dados de 2011, organizado pelo Cimi, das 12 mortes por atropelamento registradas, 8 ocorreram naquele Estado. Só da comunidade de Laranjeira Nhanderu, nesses anos em que estão acampadas, três pessoas mortas por atropelamento.

Conforme denúncias dos Kaiowá Guarani, nas Aty Guasu, "os indígenas são mortos nas estradas que nem cachorro, que se mata e fica aí jogado". Isso em função da impunidade total em que ficam os responsáveis por essas mortes. Em geral, os causadores fogem sem prestar socorro e sequer são identificados.

Zezinho tem acompanhado com muita garra e indignação as lutas de retomada de várias comunidades, como Kurussu Ambá, Ypo'í e Guaiviry, dentre outras. Essas comunidades continuam lutando por suas terras. Elas esperam, como o povo Kaiowá, continuar contando com a presença e apoio do grande líder José de Almeida Barbosa, carinhosamente conhecido como Zezinho.

Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos – 1º de julho de 2012.
http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6360&action=read

Insuficiências conceptuais da Rio+20


 Leonardo Boff
Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Pois não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões para a efetivação do propósito da Conferência que era criar as condições para o “futuro que queremos”. É da lógica dos governos não admitirem fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.
No fundo, afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento ainda. Isso concretamente significa: mais uso dos bens e serviços da natureza o que acelera sua exaustão e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados dos próprios organismos da ONU dão conta que de desde a Rio 92 houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e cerca da metade das reservas de pesca mundiais foram exauridas.
O que espanta é que o documento final e o borrador não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por quê chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceptual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU. Elenquemos alguns pontos críticos.
Os que decidem continuam dentro do velho software cultural e social que coloca o ser humano numa posição adâmica: sobre a natureza como o seu dominador e explorador, razão fundamental da atual crise ecológica. Não entendem o ser humano como parte da natureza e responsável pelo destino comum. Não incorporaram a visão da nova cosmologia que vê a Terra como viva e o ser humano como a porção consciente e inteligente da própria Terra com a missão de cuidar dela e garantir-lhe sustentabilidade. Ela é vista tamsomente como um reservatório de recursos, sem inteligência e propósito.
Acolheram a “grande transformação”(Polanyi) ao anular a ética, marginalizar a política e instaurar como único eixo estruturador de toda a sociedade a economia; de uma economia de mercado passou-se a uma sociedade de mercado, descolando a economia real da economia financeira especulativa, esta comandando aquela.           Confundiram desenvolvimento com crescimento, aquele como o conjunto de valores e condições que permitem o desabrochar da existência humana e este como mera produção de bens a serem comercializados no mercado e consumidos. Entendem a sustentabilidade como a maneira de garantir a continuidade e a reprodução do mesmo,  das instituições, das empresas e de outras instâncias, sem mudar sua lógica interna e sem questionar os impactos que causam sobre todos os serviços ecossistêmicos. São reféns de uma concepção antropocêntrica, quer dizer: todos os demais seres somente ganham sentido na medida em que se ordenam ao ser humano, desconhecendo a comunidade de vida, também gerada, como nós, pela Mãe Terra. Entretém uma relação utilitarista com todos os seres, negando-lhes valor intrínseco e por isso como sujeitos de respeito e de direitos, especialmente o planeta Terra.
Por considerar tudo pela ótica do econômico que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliram a ética e a dimensão espiritual na reflexão sobre o estilo de vida, de produção e de consumo das sociedades. Sem ética e espiritualidade, nos fizemos bárbaros, insensíveis à paixão de milhões de milhões de famintos e miseráveis. Por isso impera radical individualismo, cada país buscando o seu bem particular por em cima do bem comum global, o  que impede, nas Conferências da ONU, consensos e convergências na diversidade. E asssim, hilariantes e alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão sensível, de sabedoria e de sentido transcendente da existência.
Com estas insuficiências conceptuais, jamais sairemos bem das crises que nos assolam. Este era o clamor da Cúpula dos Povos que apresentava alternativas de esperança. Na pior das hipóteses, a Terra poderá continuar mas sem nós. Que Deus não o permita, porque é “o soberano amante da vida” como atestam as Escrituras judaico-cristãs.
Leonardo Boff é autor de O cuidado necessário, Vozes, Petrópolis 2012.
http://leonardoboff.wordpress.com/2012/07/01/insuficiencias-conceptuais-da-rio20/

Economia verde em xeque


Por Washington Castilhos, do Rio de Janeiro
Agência FAPESP – “Economia verde” costuma ser usada para descrever a compatibilização do crescimento econômico com o meio ambiente, um dos blocos do crescimento sustentável. Segundo a Green Economy Initiative, iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançada em 2008, a economia verde resulta em melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, enquanto reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica.
Apesar de ser usada há mais de 20 anos, a expressão “economia verde” ainda é controversa, assim como seu próprio conceito. Enquanto para alguns é perfeitamente possível, para os mais críticos ela seria uma tentativa de viabilizar a sociedade de consumo e adiar mudanças estruturais.
Essa foi a tônica de um painel que reuniu cientistas de diversos países no Rio de Janeiro durante as discussões para a RIO+20. No encontro, os pesquisadores debateram as possibilidades de uma economia verde, se esse modelo requer uma mudança de paradigma nos padrões econômicos ou se é compatível com os mercados competitivos, com a mercantilização de recursos e com a expansão do consumo.
A economista Elizabeth Stanton, do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo, Suécia, pontuou que é preciso analisar para quem os benefícios desse novo paradigma econômico seriam distribuídos. “A tendência é fazer os pobres ficarem mais ricos ou os ricos ainda mais ricos?”, questionou.
Tim Jackson, professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, na Inglaterra, e autor do livro Prosperity without growth (“Prosperidade sem crescimento”), defendeu uma mudança de valores, com menos consumismo e individualismos.
“O crescimento econômico tem distribuído seus benefícios de maneira desigual. Longe de elevar o padrão de vida dos pobres, o crescimento piorou a situação de boa parte da população mundial. A riqueza favoreceu uma minoria”, disse.
“À medida que a economia se expande, crescem as implicações nos recursos naturais envolvidos, com impactos globais que já são insustentáveis. No último meio século, enquanto a economia global crescia, 60% dos ecossistemas mundiais foram degradados. Uma escassez de recursos naturais básicos – como o petróleo – pode estar a menos de uma década de nós”, afirmou Jackson.
“A economia verde é uma forma de negar evidências como a de que a concentração de dióxido de carbono está crescendo a 2 partes por milhão (ppm) ao ano”, disse o espanhol Joan Martinez Alier, da Universidade de Barcelona, à Agência FAPESP.
Segundo o economista catalão, a base do acordo deveria ser o hemisfério Norte global renunciar ao crescimento econômico em favor do crescimento do Sul.
“Creio que o Norte deveria ter economias sem crescimento e o Sul deveria reduzir suas extrações naturais para a metade e passar a exportar menos seus produtos. O que o Sul também poderia fazer era aumentar os impostos sobre a exportação. No caso brasileiro, por exemplo, quem pagaria por um possível acidente ecológico na extração do petróleo do fundo do mar, com o pré-sal?”, disse.
Para Alier, a proposta de sustentabilidade mundial baseada em ajudas financeiras multilaterais não é o caminho. “Emprestar dinheiro, como historicamente se tem feito, não é a saída, pois preservar o meio ambiente não é uma questão de milhões, mas sim de controlar a mudança climática e manter a biodiversidade”, disse.
“Em relação aos países do hemisfério Sul, há um pensamento de que eles são demasiados pobres para serem ecológicos. Mas do que morreram pessoas como Chico Mendes se não para defender a ecologia? Ecologia não é um luxo, é uma necessidade para todos”, afirmou Alier.
Recursos naturais
Lidia Brito, diretora da divisão de Políticas Científicas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), rejeita a expressão “economia verde”.
“Para ser honesta, na Unesco não falamos em economia verde. Falamos de sociedade verde. Penso que o ceticismo dos investigadores vem daí: a discussão não é sobre economia. O que temos certeza é que não é possível falar apenas de um dos blocos do desenvolvimento sustentável”, disse.
“A economia não pode ser discutida sem as questões sociais, culturais e ambientais. Elas estão interligadas e não podem ser tratadas de forma independente. Fico satisfeita com os cientistas brasileiros, que não querem falar apenas em economia. Temos que falar em sociedade verde, para destacar essa força de mudança”, disse Brito.
Na opinião de Ronaldo Seroa da Motta, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor de Economia Ambiental do Ibmec no Rio de Janeiro, não há outra saída a não ser tentar uma economia que seja restritiva no uso de recursos naturais.
“Sou a favor da precificação dos recursos naturais. Enquanto tivermos água barata, por exemplo, vamos consumir mais. Devemos nos preocupar com o produto líquido, quer dizer, o quanto que de capital natural perdemos para gerar uma determinada produção. Era isso que deveríamos estar medindo”, disse.
“Se aumentarmos o preço dos serviços ambientais, teremos uma perda de crescimento econômico em curto prazo, mas depois isso será revertido. Um exemplo: devido ao alto índice de desmatamento das florestas, o cerceamento à extração de madeiras fez com que passássemos a usar derivados de petróleo, e hoje vemos muitos produtos de plástico e quase nada de madeira. Mas se tivermos uma política agressiva na área ambiental, a primeira coisa a ser feita é reflorestar, opção mais barata e urgente”, afirmou.
Segundo Motta, ex-diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), é preciso reflorestar 10% da superfície do planeta para capturar carbono. “Isso impulsionaria enormemente o setor produtivo da madeira, uma vez que vamos extrair madeira e mobilizá-la em artigos como móveis, para poder fazer a madeira crescer novamente e continuar capturando carbono”, disse.
“Então, daqui a 30 anos, por exemplo, o fato de colocarmos o preço do carbono alto e todo mundo ter que plantar para poder continuar a produzi-lo, implicará em crescimento econômico impulsionado pelo setor produtivo da madeira, mais competitivo, sem degradação do meio ambiente”, disse.
De acordo com Motta, a saída não é aumentar o preço do que não é sustentável por meio de impostos, mas sim incentivar iniciativas sustentáveis cujos produtos sejam mais baratos. 
http://agencia.fapesp.br/15766

Belo Monte agrava desarticulação indígena

Entrevista especial com Rodolfo Salm “Trata-se da velha estratégia utilizada no Brasil há mais de 500 anos. Quando os portugueses chegaram aqui, não tinham poder de fogo para combater os índios, então, colocaram índio contra índio”, constata o biólogo.

Confira a entrevista.


Diferente da articulação dos povos indígenas na Cúpula dos Povos, em Altamira, Pará, onde está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, as “comunidades indígenas estão muito desarticuladas”, diz Rodolfo Salm à IHU On-Line. Em entrevista concedida por telefone, ele esclarece que a desarticulação das comunidades indígenas é consequência, além dos seus conflitos internos, da “ação dos construtores e idealizadores de Belo Monte, que dividiram os índios. Eles se aproveitaram de antigas divisões entre os Xikrins, da região de Altamira, e os Caiapós, que estão mais perto do Mato Grosso, e estabeleceram um conflito entre eles. Por isso alguns índios aceitam, de certa forma, a barragem, e outros são radicalmente contra. Esse conflito entre as etnias favoreceu a construção da barragem”.

Salm comenta também o acampamento dos índios Xikrins no canteiro de obras de Belo Monte e é enfático: “Existem alguns índios que não querem saber das condicionantes, que são totalmente contra a barragem, mas tenho a impressão de serem minoria. A minha esperança é que esse movimento se torne numa ‘bola de neve’; gostaria que viessem mais e mais índios. Seria ótimo se viessem os indígenas do Mato Grosso, e a mobilização aumentasse e até, quem sabe, inviabilizasse a obra. Isso parece um sonho impossível, mas é a nossa esperança, porque sempre esperamos que, de alguma forma, essa obra não aconteça”.

Rodolfo Salm é Ph.D em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, Inglaterra, e formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. É professor da Universidade Federal do Pará, onde desenvolve o projeto Ecologia e Aproveitamento Econômico de Palmeiras.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como foi realizado o encontro Xingu+23? Foi uma resposta a Rio+20?

Rodolfo Salm – O encontro “pegou carona” na ocorrência da Rio+20, como uma oportunidade de chamar a atenção para o problema ambiental da região do Xingu. Não foi exatamente uma resposta. Foi mais um evento paralelo a Rio+20.

IHU On-Line – Como avalia a articulação dos povos indígenas durante esses 23 anos? Que semelhanças e diferenças aponta hoje em relação ao 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, que aconteceu em 1989? Percebe que hoje há mais articulação?

Rodolfo Salm – Os povos indígenas estão mais articulados, de certo modo. Mas em Altamira, por exemplo, há um nível de desagregação muito grande, e as comunidades indígenas estão muito desarticuladas. Isso é consequência da ação dos construtores e idealizadores de Belo Monte que dividiram os índios. Eles se aproveitaram de antigas divisões entre os Xikrins, da região de Altamira, e os Caiapós, que estão mais perto do Mato Grosso, e estabeleceram um conflito entre eles. Por isso alguns índios aceitam, de certa forma, a barragem, e outros são radicalmente contra. Esse conflito entre as etnias favoreceu a construção da barragem. Trata-se da velha estratégia utilizada no Brasil há mais de 500 anos. Quando os portugueses chegaram aqui, não tinham poder de fogo para combater os índios. Então colocaram índio contra índio.

Atualmente alguns índios estão ocupando parte do canteiro de obras de Belo Monte, mas nem todos estão lutando contra a barragem. Alguns são contra, mas as lideranças estão exigindo o cumprimento das condicionantes. Por outro lado, os Caiapós do Mato Grosso, liderados por Raoni, não querem nem saber de condicionantes. Eles são radicalmente contra Belo Monte. Então, não há uma união. Os índios Mundurucus, por exemplo, da região do alto Tapajós, vieram para o encontro do Xingu+23, porque estão preocupados com a perspectiva da construção de barragens na região de Teles Pires. Mas eles já estão engajados na luta contra esse processo de degradação do rio Xingu, que tende a se espalhar por toda a região amazônica.

Então, é muito difícil a articulação, porque eles têm um histórico de conflitos internos, e isso dificulta muito o diálogo. É só ver o exemplo de como os Xikrins têm dificuldade de se articular com os Caiapós na luta contra Belo Monte. Agora, em algum nível a articulação isso deve acontecer, especialmente na Cúpula dos Povos, em que deve ter acontecido algum tipo de união.

IHU On-Line – Qual a importância do Xingu para os povos indígenas, e que relação eles estabelecem com o rio?

Rodolfo Salm – O rio é tudo para eles. Ele é fundamental não só por causa do sustento, mas também devido a aspectos culturais e existenciais. O discurso do governo federal diz que nenhuma terra indígena será alagada. É verdade que algumas não serão, mas outras terras indígenas perderão o rio que passa na frente da aldeia. Atualmente o rio Xingu passa na frente da aldeia e é um rio extremamente fértil, cheio de recursos. Depois da construção da usina, será um rio morto, sem peixes, porque a água ficará quente, sem oxigênio.

No leito do Xingu também tem uma grande quantidade de ouro, e isso vai atrair garimpeiros para a região. Imagina um monte de garimpeiros entrando numa terra indígena? Será catastrófico. Esses são impactos nas comunidades da região de Volta Grande. Ainda é preciso considerar os impactos indiretos, que estão sobre todos os povos indígenas da região do Xingu. Esses impactos indiretos serão decorrentes da imigração em massa de imenso contingente populacional, em consequência da construção da barragem. A previsão é que cerca de cem mil pessoas venham para a região. Com isso aumentará a probabilidade de invasão de terra, e todos os problemas sociais relativos ao contato tendem a se aprofundar.

IHU On-Line – Por quais motivos os índios estão acampados em Belo Monte?

Rodolfo Salm – Os índios Xikrins estão reivindicando o cumprimento das condicionantes. Existem alguns índios que não querem saber das condicionantes, que são totalmente contra a barragem, mas tenho a impressão de serem minoria. A minha esperança é que esse movimento se torne numa “bola de neve”; gostaria que viessem mais e mais índios. Seria ótimo se viessem os indígenas do Mato Grosso, e a mobilização aumentasse e até, quem sabe, inviabilizasse a obra. Isso parece um sonho impossível, mas é a nossa esperança, porque sempre esperamos que, de alguma forma, essa obra não aconteça.

IHU On-Line – No início deste mês, a presidente Dilma anunciou a homologação de sete terras indígenas, cinco no Amazonas, uma no Pará e outra no Acre. O que essa medida significa ou sinaliza num contexto de Rio+20?

Rodolfo Salm – Toda a homologação de terras indígenas é uma boa notícia. Isso fez parte daquele pacotão para o governo ficar “bem”, durante a Conferência da Rio+20. É importante demarcar as terras indígenas, porque elas são essenciais para a concentração da biodiversidade. Mesmo nas áreas mais impactadas, se compararmos o estado de preservação das terras indígenas com as áreas em torno, veremos que as áreas indígenas são sempre melhores para a conservação.

Recentemente, a revista Veja publicou uma matéria criticando os índios e a demarcação de terras indígenas. Eles mostram uma paisagem em que, de um lado da estrada tem uma fazenda de soja e, do outro, uma terra indígena recém-demarcada, e questionam: “Qual dos dois lados é o preservado?” De um lado teria a produção e, de outro, uma terra abandonada, degradada, cheia de lixo. Mas quando você olha a foto, quem entende de natureza, de biodiversidade e de conservação, percebe claramente que a área indígena é a que preserva pequenos mamíferos, aves, a biodiversidade de insetos etc.

IHU On-Line – E como você analisa a posição da sociedade civil em relação a todas essas questões que dizem respeito aos povos indígenas, ao modelo do desenvolvimento do governo que impacta diretamente nas comunidades?

Rodolfo Salm – Quando falo com as pessoas, elas se sensibilizam para essa questão. Penso que a maior parte do povo brasileiro se preocupa com os povos indígenas e não gostaria de ver isso acontecendo, mas o sistema político impõe essa condição. A questão indígena não foi debatida na campanha presidencial. Quando a Dilma se candidatou a presidente, ela nem falava de Belo Monte, porque sabia que iria “queimar seu filme”. As grandes empreiteiras que financiaram a campanha dela, essas sim estão interessadas na construção da barragem. Agora, o povo, de forma geral, é simpático à preservação da floresta, à conservação dos povos.

IHU On-Line – Como o modo de vida dos indígenas contribui para pensarmos um planeta sustentável?

Rodolfo Salm – Fiz meu doutorado na aldeia indígena Caiapós, morei dois anos com eles e vi que têm uma vida simples, de contato com a natureza, não consomem muitos bens materiais, cuidam dos animais e das plantas. Isso tudo que está no imaginário popular tem um grande teor de verdade. Você vê que eles não são incorruptíveis, é claro que eles querem um rádio, uma televisão. Mas o que eles têm para mostrar é que é possível ser feliz usufruindo da natureza preservada.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Rodolfo Salm – Gostaria de ressaltar que Belo Monte não irá gerar uma energia limpa. É uma energia muito suja por causa do metano produzido pelas barragens. Outra coisa importante é que não é uma energia para o desenvolvimento do Brasil, não é uma energia para a nossa industrialização, mas sim para exportar minérios. O Brasil está exportando energia barata na forma de minérios processados. Não se trata de uma energia para 60 milhões de habitantes, como aparece na propaganda da televisão.

Muitas pessoas estão colocando em dúvida o aquecimento global, o que é uma bobagem. Infelizmente, esse é um problema real e que se agrava a cada dia. Então, Belo Monte é suja e contribui muito para o aquecimento global e para a degradação do clima geral do planeta, sem contribuir em nada para o desenvolvimento da nossa sociedade. É possível fornecer energia para todos reduzindo o desperdício nas linhas de transmissão, atualizando as barragens já feitas, além de investir em fontes alternativas para a produção de energia.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/510983-barragem-agrava-desarticulacao-indigena-entrevista-especial-com-rodolfo-salm

Carta da AMB contra a crimininalizaçao de ativistas do MXVS



CARTA ABERTA À JUSTIÇA DO PARÁ


Não há qualquer consenso na sociedade brasileira quanto ao modelo de desenvolvimento que queremos para o Brasil e muito menos como queremos que seja produzido energia para sustentar este modelo. Mas é consenso que vivemos num Estado de direito no qual a justiça deve garantir não somente a liberdade de opinião às pessoas, mas o direito de fazer críticas ao Estado e de defender todos os direitos humanos.

Assim, para nós que fazemos a Articulação de Mulheres Brasileiras, movimento que está no campo da crítica a este modelo, consideramos inaceitável o pedido de prisão preventiva de pessoas sob a justificativa de participar de protestos contra a construção da Usina Belo Monte.  Ora, até onde sabemos, constitucionalmente, a manifestação e a participação são direitos instituintes da democracia e não, atos criminosos.

Estivemos em Altamira no Encontro das Mulheres do Xingu realizado em 2011 e ali dialogamos  com nossas companheiras de luta que estão na organização da resistência ao complexo hidrelétrico de Belo Monte. Com elas nos somamos em protestos e atos nas ruas, atos de forte conteúdo político pedagógico, pois são a única forma de falar à população sobre os efeitos negativos das grandes obras que, no curto e longo prazo, atingirão toda a população da Amazônia.

Quando o poder econômico percebe o potencial pedagógico dos protestos sobre a população, organiza-se para utilizar a repressão institucional contra essas populações: a concessionária responsável pela usina acusa 11 pessoas de roubo, formação de quadrilha e perturbação da ordem, entre outros crimes.

DIZEMOS NÃO A REPRESSÃO! 

REINVIDICAMOS O DIREITO À JUSTIÇA!



Não à criminalização das lutas sociais!
Pelo Direito a ter Direitos!
Pelo direito à resistência e à defesa de nossos direitos humanos!

Articulação de Mulheres Brasileiras e agrupamentos estaduais com atuação na luta por justiça socioambiental:

Articulação de Mulheres do Acre
Articulação de Mulheres do Amapá
Articulação de Mulheres do Amazonas
Núcleo de Mulheres de Roraima
Fórum de Mulheres da Amazônia  Paraense
Articulação de Mulheres Tocantinenses
Fórum de Mulheres do Distrito Federal
Fórum Goiano de Mulheres
Fórum de Mulheres de Mato Grosso
Articulação de Mulheres do Mato Grosso do Sul
Fórum Cearense de Mulheres
Fórum Estadual de Mulheres Maranhenses
Rede de Mulheres em Articulação da Paraíba
Fórum de Mulheres da Paraíba
Fórum de Mulheres de Pernambuco
Fórum de Mulheres Piauienses
Fórum Estadual de Mulheres do Rio Grande do Norte
Fórum de Mulheres de Sergipe
Fórum de Mulheres Lauro de Freitas -BA
Articulação de Mulheres Brasileiras – RJ
Fórum de Mulheres do Espírito Santo

Belém, 27 de Junho de 2012

Enviado por Nilde Sousa

domingo, 1 de julho de 2012

Vítimas do inseticida DDT em Santarém/PARÁ: Homens envenenados e abandonados

Em Santarém, na quarta-feira, 27, Edmar Paiva do Carmo, 56 anos, perdeu a guerra. Morreu depois de 15 anos de luta contra os efeitos de um inimigo a princípio invisível, depois incomodamente presente no cotidiano dele e da família. Os sintomas da exposição ao longo de pelo menos duas décadas contínuas ao inseticida DDT, utilizado até meados dos anos 90 no combate ao mosquito da malária. Sem equipamentos adequados de proteção, os ‘homens da Sucam’ percorreram todos os espaços amazônicos, lidando diária e diretamente com o inseticida. Ajudaram a minimizar as epidemias de malária na região, mas pagam um preço alto por isso até hoje.
“Temos 802 funcionários intoxicados. Já perdemos 108 nessa guerra. O companheiro de Santarém foi a vítima mais recente”, diz Luís Sérgio Botelho, integrante da Comissão dos Intoxicados, que luta contra a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) pelo direito a uma indenização aos trabalhadores contaminados. Um dia depois da morte de Edmar Paiva do Carmo, representantes da comissão engrossaram as manifestações contra o Governo Federal em frente à sede do Banco Central em Belém. Fincaram cruzes com o nome de dezenas de mortos, vitimados direta ou indiretamente, segundo Botelho, pelos efeitos da exposição maciça ao DDT.
EM BATALHA
Dizer guerra não é apenas uma força de expressão. Recrutados principalmente durante o regime militar brasileiro na década de 1970, os homens que borrifavam o DDT na região eram tratados como se fossem soldados. Tinham de bater continência, adotar normas de quartel durante a chegada e saída do local de trabalho. De lá partiam para os rincões mais profundos da Amazônia. Em burros, barcos, caminhonetes, a pé, embrenhavam-se onde houvesse a possibilidade de uma casa.
A missão era evitar a proliferação do mosquito transmissor da malária. Os agentes borrifavam nas ruas e imóveis o DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) e o Malation, compostos químicos altamente tóxicos, sem o uso de equipamentos de proteção à própria saúde. Os trabalhadores não eram informados nem treinados adequadamente a respeito dos riscos de contaminação.
A exposição ao DDT por mais de duas décadas, sem o uso dos equipamentos de proteção necessários, gerou graves sequelas à saúde dos agentes. Os relatos e queixas são semelhantes como dores de cabeça, contrações musculares, irritabilidade, amnésia, lesões na pele, tontura e alguns traumas de caráter nervoso, como a impotência sexual. Sequelas crônicas, incuráveis.
A ação do DDT afeta diretamente o sistema nervoso causando atrofia de membros, dores musculares e alteração no sistema neurológico, levando a mudanças de comportamento. É o que diz, por exemplo, um laudo médico assinado no dia 06 de dezembro de 2001 pelo toxicologista Otávio Américo Brasil. Ao examinar, em Brasília, o agente Manoel Valente Tavares, atualmente prestes a completar 60 anos, o especialista constatou que a quantidade de DDT no sangue de Tavares era de 14, 08 micrograma por decilitro. Um índice normal seria 3 microgramas por decilitros de sangue.
Contato com DDT começava aos 17 anos
A avaliação médica só confirmava os sintomas que Manoel Valente Tavares vinha apresentando. Estava irritável, com seguidas vertigens, dificuldades de equilíbrio, tremores, convulsões. “A ação tóxica do DDT atua na fibra nervosa e motora do córtex motor”, descreve o diagnóstico. Tavares não sabe explicar didaticamente as conclusões médicas, mas sabe o que sente. “Tem dia que fico falando só. Não é uma coisa normal. Minhas unhas são todas quebradas, minhas mãos tremem. E se eu for falar das dores passo dia inteiro aqui”, afirma.
Tavares iniciou como agente no dia 25 de maio de 1970. Tinha apenas 17 anos. Lidou com todos os tipos de inseticidas. Fazia a pesagem do DDT, criando a mistura. “No depósito a gente ficava perto de tudo quanto era tipo de inseticida. Chegava a dormir em cima dos sacos do produto”, lembra. “Nas viagens, por desconhecimento, a gente chegava a lavar roupa nos mesmos baldes que fazia a mistura, fazia comida nesses baldes”.
Rudival Ribeiro da Costa, 62 anos, vivenciou isso de perto. Começou no dia 1º de maio de 1970, em Capanema. Tinha 18 anos. “Só me deram o capacete e a farda”, diz. Costa percorreu a Transamazônica e outras estradas e vilarejos do Pará. “Trabalhei pesado e o contato com o DDT era direto”, diz. O resultado, anos depois, é um homem que às vezes tem de procurar as palavras certas para dizer o que pensa. A família tem de suportar o excesso de nervosismo, as brigas fúteis. No corpo Rudival traz as cicatrizes da batalha perdida. As mãos são inchadas, joelhos e tornozelos arrebentados por artroses. “Foram 20 anos direto com isso”, resume.
(Diário do Pará)http://www.diarioonline.com.br/noticia-208484-homens-envenenados-e-abandonados.html